AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

SUPERMERCADO BRASIL

Onde até a consciência entra na promoção

Há coisas que a gente aprende antes mesmo de saber o nome delas. Eu, por exemplo, aprendi a desconfiar da política vendo futebol. Não o futebol milionário, de estádio cheio, televisão, patrocinador e jogador que vale mais que um quarteirão inteiro. Falo do futebol de bairro. Da várzea. Do campo de terra. Da trave torta. Da bola que já havia sido chutada por três gerações e, ainda assim, insistia em continuar redonda. Em toda vila, em todo bairro, havia um time. Ou dois. Às vezes três. E havia sempre um homem importante por trás deles. O dono do time.

 

Não necessariamente dono no papel, porque papel, naquela época, servia mais para embrulhar pão. Era dono na prática: arrumava o campo, conhecia o vereador, conversava com o prefeito e, quando chegava o período eleitoral, fazia aparecer aquilo que até então parecia milagre: camisa nova, calção novo e meia nova. Um jogo completo. O candidato ajudava o clube. O clube, naturalmente, ajudava o candidato. Ninguém falava em compra de votos. Era “apoio”.

 

Como sempre, a política brasileira teve enorme talento para escolher palavras inocentes para coisas nem sempre inocentes. Eu era menino. Não sabia quem era Maquiavel. Não conhecia Machado de Assis. Não tinha ouvido falar em ciência política. Mas já havia percebido que, quando o candidato dava a camisa, alguém acabava vestindo. E geralmente não era o candidato. Foi talvez a primeira aula de política que recebi. A bola entrava em campo, e o voto vinha logo atrás.

 

Depois apareceu outro personagem inesquecível: o fiscal da prefeitura. A casa começava a ser construída. Primeiro chegava a areia. Depois os tijolos. Depois o cimento. Tudo elegantemente colocado na calçada, como se a rua fosse extensão da obra. Planta? A samambaia pendurada. . Alvará? Melhor não perguntar. Mas havia entusiasmo. O pedreiro trabalhava. O proprietário sonhava. E a parede subia. Até que surgia o fiscal. Era uma figura quase bíblica. Chegava com a prancheta debaixo do braço e a expressão de quem havia acabado de descobrir uma conspiração internacional. Olhava a obra. Olhava os tijolos. Olhava o cidadão. E anunciava: — Isso vai dar multa! Em seguida vinha o embargo. A ameaça. A burocracia. O fim do mundo administrativo. O cidadão entrava em casa preocupado.Mas alguma coisa acontecia no caminho entre a ameaça e a multa. A multa nunca chegava. O embargo evaporava. O fiscal desaparecia. E a obra continuava.

 

Como diria Machado, se por acaso estivesse passando por aquela rua, a realidade brasileira sempre teve o hábito de desmentir a papelada. Os anos passaram. A sociedade evoluiu. Inventamos o telefone celular, o Pix, a inteligência artificial e outras maravilhas. Mas algumas coisas continuam funcionando com tecnologia antiga. A política, por exemplo. O Supermercado Brasil cresceu. Hoje não vende apenas camisa de futebol. Vende quase tudo. Tem cargo. Tem favor. Tem promessa. Tem emenda parlamentar. Tem contrato. Tem obra. Tem benefício. Tem influência. Tem discurso. Tem inauguração. Tem fotografia. Tem aperto de mão. E, em certas épocas, parece até vender consciência. Tudo com embalagem moderna. Código de barras eleitoral. Nota fiscal, nem sempre.

 

É interessante observar como mudam os nomes. Quando é o adversário que concede um benefício: — Compra de voto! Quando é o nosso grupo: — Política social. Quando é o governo de quem gostamos: — Investimento na população. Quando é o governo de quem não gostamos: — Populismo. Quando nosso candidato promete: — Compromisso. Quando o outro promete: — Demagogia. A verdade, coitada, fica no meio da sala, olhando para todo mundo e perguntando: — Afinal, vocês querem que eu fique?

 

E então chega a notícia internacional. Donald Trump, segundo relatos divulgados, teria associado uma promessa de pagamento de US$ 5 mil a adultos americanos a um eventual resultado eleitoral favorável aos republicanos. Não entro aqui no mérito da proposta, nem em sua eventual viabilidade, fonte de recursos ou enquadramento jurídico. Mas a pergunta continua parada na porta, esperando alguém convidá-la para entrar: quando dinheiro é prometido ao eleitor em conexão com uma eleição, não seria legítimo perguntar onde termina a política pública e começa a tentativa de conquistar o voto?

 

Pergunta simples. Resposta difícil. Principalmente, porque perguntas assim têm a péssima mania de atravessar partidos. Imagino Machado de Assis diante disso. Ele talvez não escrevesse uma denúncia. Talvez criasse um personagem. Chamaria o sujeito de Conselheiro Alguma Coisa. O homem entraria na sala, cumprimentaria todos e diria: — Não estou comprando voto. Estou apenas fazendo uma gentileza financeira ao eleitor.

 

Machado provavelmente sorriria daquele jeito que não sabemos se é ironia ou compaixão. E o leitor perceberia que o problema não está no dinheiro. Está na velha arte de transformar interesse particular em virtude pública.

Drummond talvez fizesse diferente. Talvez olhasse para a urna. Para a fila. Para o eleitor. Para o candidato. E perguntasse: E agora, José? O candidato prometeu. O eleitor ouviu. O benefício chegou. A eleição passou. E agora, José? A rua continua esburacada. O hospital continua cheio. A escola continua esperando. A vida continua difícil. Mas a fotografia da inauguração ficou bonita. E fotografia, como sabemos, tem uma extraordinária capacidade de esconder os buracos.

 

O problema talvez esteja justamente aí. Não na existência de políticas sociais. Não no auxílio a quem precisa. Não na emenda parlamentar que efetivamente atende ao interesse público. Não na obra pública necessária. O problema começa quando o cidadão deixa de ser cidadão e passa a ser tratado como cliente. Quando o Estado deixa de dizer: — Você tem direito. E passa a sugerir: — Você me deve.

 

Direito não é favor. Política pública não deveria gerar dívida eleitoral. Benefício social não deveria comprar gratidão. Porque quem recebe um direito não precisa agradecer ao governante. Deve cobrar que ele continue fazendo seu trabalho. Mas nós brasileiros temos uma relação curiosa com a gratidão. Recebemos aquilo a que temos direito e agradecemos como se fosse presente. Depois o político aparece na fotografia. Sorrindo.Com a mão sobre o coração. E alguém diz: — Esse homem trabalha pelo povo. Talvez trabalhe. Mas é bom lembrar uma coisa: governante não é benfeitor. É servidor. E servidor público não deveria passar a vida distribuindo favores. Deveria garantir direitos.

 

O Supermercado Brasil, porém, não fecha. Funciona aos domingos. Em feriados. Em época de eleição, trabalha em horário especial. Há promoção para todos os gostos. “Leve três promessas e pague uma.” “Compre uma emenda e ganhe uma fotografia.” “Na compra de um discurso, leve gratuitamente uma inauguração. “Plano fidelidade: vote conosco por quatro anos e ganhe o direito de reclamar depois.”

 

É um sucesso. Tem cliente de esquerda. Tem cliente de direita. Tem cliente de centro. Tem cliente que diz não gostar de política, mas conhece exatamente o preço do favor que pretende pedir. A democracia brasileira é tão democrática que até o balcão atende todos os partidos. E talvez seja essa a nossa maior tragédia. Não conseguimos acabar com o supermercado. Porque, de algum modo, também somos consumidores. Às vezes compramos. Às vezes vendemos. Às vezes fingimos que não vimos. Às vezes reclamamos do preço, mas continuamos fazendo negócio. E há momentos em que o eleitor, cansado, descrente e endividado, olha para a própria realidade e pensa: — Se ninguém pensa em mim, pelo menos esse me deu alguma coisa.

 

E é justamente aí que a política vence. Não quando compra o voto. Mas quando consegue convencer o cidadão de que seu voto é a única coisa que ele tem para vender. Talvez seja necessário voltar à infância. Àquele campo de terra. Àquela camisa nova. Àquele time de bairro. Àquela ingenuidade que ainda permitia perceber que havia alguma coisa errada. Porque a criança pergunta: — Por que ele deu a camisa? O adulto já aprendeu a responder: — Política. E talvez esse seja o momento em que começamos a perder alguma coisa. A capacidade de estranhar. A capacidade de perguntar. A capacidade de dizer: — Isso não está certo.

 

No fundo, democracia deveria ser coisa muito simples. Você escolhe. Eu escolho. Ele escolhe. Cada um segundo sua consciência. Sem camisa. Sem cesta. Sem favor. Sem cargo. Sem promessa de dinheiro. Sem medo. Sem dívida. Porque o voto deveria ser a manifestação mais barata e, ao mesmo tempo, mais valiosa de uma sociedade. Barata porque não deveria custar nada. Valiosa porque pode decidir tudo.

 

Mas o Supermercado Brasil continua aberto. As portas permanecem escancaradas. As promoções mudam. Os vendedores também. As embalagens ficam mais sofisticadas. O discurso ganha palavras novas. A propaganda fica mais bonita. A tecnologia ajuda. O algoritmo escolhe o público. O marqueteiro escolhe a frase. O candidato escolhe a promessa. E o eleitor... Bem, o eleitor continua empurrando o carrinho.

 

Só espero que, algum dia, olhe para dentro dele e descubra que está carregando coisas demais. Promessas. Favores. Medos. Interesses. E talvez tenha esquecido justamente o produto mais importante: a própria consciência. Porque, quando a consciência entra no carrinho de compras, qualquer preço parece barato. E quando chega ao caixa... não há cartão que pague. Nem Pix. Nem dólar. Nem cinco mil dólares. Porque uma democracia pode até sobreviver a políticos ruins.Pode sobreviver a governos ruins. Pode sobreviver a oposição ruim.

 

Mas uma democracia corre perigo quando o cidadão começa a acreditar que a própria dignidade está à venda. Nesse dia, o Supermercado Brasil não precisa mais de vendedores. Nós mesmos fazemos a fila. E ainda perguntamos:

— Tem desconto para eleitor antigo?

 

 

 

 

 

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 11/09/2026
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