O CHAPÉU, O MECENAS E O SILÊNCIO CARO
Dizem que cultura é gasto.
Os mesmos que gastam bilhões em esquecimento,
erguem sobrancelhas diante de um violino,
uma peça teatral,
um livro de poesia que venderá menos exemplares
do que um escândalo político rende memes.
A tal da Lei Rouanet — esse nome pronunciado por muitos
como se fosse palavrão ou feitiço comunista
na verdade é um balcão onde o artista, depois de preencher formulários capazes de envelhecer um santo,
ganha o direito de passar o chapéu.
Não recebe o dinheiro.
Recebe autorização para pedir.
E pedir, neste país,
é quase sempre mais humilhante do que roubar.
O produtor cultural bate à porta do investidor:
— O senhor apoiaria um documentário?
Uma peça?
Um concerto?
Um livro sobre alguém que a História quase apagou?
O investidor calcula.
Porque filantropia raramente anda sozinha;
costuma vir de braços dados com marketing.
A vantagem existe.
Quem financia aparece.
O logotipo sorri no cartaz.
O nome surge no folder.
A marca posa ao lado do artista,
como quem cochicha:
— Vejam como sou sensível às dores humanas.
Não é pecado.
É troca.
Uns chamam incentivo.
Outros chamam publicidade subsidiada.
No fim, todos seguem para casa convencidos de terem feito o bem.
Mas eis que surge o enredo tropical.
Um político, orgulhoso, diz nunca ter usado certas vias oficiais de incentivo para realizar um projeto cinematográfico sobre o próprio pai — figura cercada por controvérsias, processos, idolatrias e grades, porque no Brasil até a prisão costuma virar torcida organizada.
Conta-se, então, que procurou apoio financeiro junto a um banqueiro de fortuna oceânica e currículo frequentemente citado em páginas policiais e econômicas.
Primeiro nega.
Depois explica.
Depois diz que havia confidencialidade.
Ah…
Confidencialidade.
Palavra elegante para os tempos modernos.
Serve de guarda-chuva quando a chuva já virou enchente.
E aí nasce a pergunta, dessas que insistem em não morrer:
Se o grande financiador não queria visibilidade…
Se não queria o nome associado…
Se não queria marca no cartaz…
Se não queria fotografia no lançamento…
Que lucro simbólico recebeu?
Porque capital costuma ser bicho exigente.
Dinheiro raramente atravessa a rua por puro romantismo.
E se quem deu não queria aparecer,
o que ganhou quem pediu?
Pergunta não é acusação.
Pergunta é apenas uma lanterna.
Alguns têm medo justamente da luz.
Enquanto isso, do outro lado do país,
um escritor desconhecido tenta captar recursos para contar a história do avô esquecido pela República;
uma atriz de 55 anos implora verba para montar peça sobre envelhecimento feminino;
um músico grava demo em quarto improvisado;
um cineasta negro tenta provar que memória também é patrimônio.
Todos passam o chapéu.
Chapéus honestos.
Chapéus cansados.
Chapéus vazios.
E descobrem depressa a regra não escrita do mecenato nacional:
Há dinheiro para quem já tem palco.
Luz para quem já brilha.
Microfone para quem nunca precisou gritar.
Ao restante sobra a fila,
o formulário,
a prestação de contas
e a velha frase nacional:
— Cultura é importante… mas agora não.
Agora nunca.
Depois nunca.
Até o dia em que um país sem memória percebe, tarde demais,
que gastou fortunas construindo estátuas para o poder
e economizou migalhas para preservar a alma.
Porque estrada sem arte leva a lugar nenhum.
E povo sem cultura aprende rápido a aplaudir o próprio esquecimento.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 16/05/2026