O Rei Roberto cantou que queria ter um milhão de amigos. Eu, menos ambicioso e mais mal-informado sobre as regras do prestígio, queria só um — mas um desses amigos que não vêm com afeto: vêm com senha, influência e talão sem limite.
Um amigo desses iguais aos das figuras públicas em evidência. Amigo de alto padrão institucional. Companheiro emocional de camarote VIP.
Daqueles que financiam documentário, emprestam sítio, cedem mansão,
articulam patrocínio, fazem PIX milionário com a naturalidade de quem paga café na padaria.
Um amigo assim. Porque eu também tenho um pai, um avô, uma história.
Ou melhor: tenho Alfredo Gomes, um homem negro, trabalhador, atleta pioneiro olímpico, empurrado lentamente para o porão do esquecimento nacional por esse elegante processo brasileiro de embranquecimento da memória.
No Brasil, certos sobrenomes viram avenida. Outros viram silêncio. Alfredo virou nome de praça, mas quase ninguém fez questão de evidenciar este fato. E eu queria filmar isso. Transformar a sua vitoriosa trajetória esportiva no atletismo em documentário. Dar voz ao homem que ajudou a construir história sem jamais receber o direito de narrá-la.
Mas descobri que memória também possui CEP social. Quando o sobrenome é ilustre, aparecem banqueiros sentimentais, empresários culturalmente generosos, amigos dispostos a “fortalecer o projeto”. Quando o sobrenome não tem notoriedade, o máximo que aparece é boleto vencido
e conselho motivacional em vídeo de trinta segundos.
Vivemos num país curioso, onde todos são iguais. Só que uns são assustadoramente mais iguais que os outros. Os notáveis frequentam listas invisíveis. Clubes seletos da influência afetiva. Uma espécie de Maçonaria Premium da conveniência nacional. Ali circulam convites, incentivos, patrocínios, favores e oportunidades com a discrição de uma taça de vinho servida em Brasília.
Já nós, mortais da periferia poética, continuamos preenchendo formulário,
edital, contrapartida, currículo, portfólio, comprovante de relevância cultural e talvez até exame de DNA artístico.
Porque talento sem pedigree social vale menos que champanhe quente em lobby de hotel cinco estrelas. Às vezes fico pensando onde encontrar um amigo assim. Certamente eles não estarão no boteco da quebrada
testando a crocância de um torresmo, regado a breja gelada em copo americano, enquanto o pagode toca ao fundo e alguém reclama do preço do gás. Ali ninguém financia documentário. No máximo racham a conta da cerveja e oferecem solidariedade parcelada em abraços sinceros. Os amigos milionários da República frequentam outros ambientes.
Talvez estejam em restaurantes onde o guardanapo custa o valor da feira do mês. Ou em jantares discretos onde projetos culturais nascem entre lagostas, vinhos importados e apertos de mão republicanos. Enquanto isso, Alfredo segue esperando que alguém perceba que a história do povo negro brasileiro não pode continuar sendo contada apenas como nota de rodapé
num país especialista em apagar pegadas pretas da calçada oficial da memória. Porque esquecer também é um projeto político.
E talvez o maior privilégio dos poderosos não seja ter dinheiro. Seja ter amigos capazes de transformar lembrança em patrimônio histórico. Nós outros seguimos aqui: com talento, com memória, com verdade,
com dor, com poesia —mas sem o telefone dos amigos certos.