PROCURO UM AMIGO IRMÃO CAMARADA
PROCURO UM AMIGO, IRMÃO CAMARADA
Eu procuro um amigo rico.
Mas rico daquele jeito patriótico.
Daqueles que emprestam sítio com tanta frequência
que o caseiro já confunde o visitante com proprietário.
Um amigo camarada,
com adega abastecida,
churrasqueira acesa
e freezer mais cheio que promessa de campanha em ano eleitoral.
Nada demais.
Só um refúgio poético
para eu escrever a história do meu pai
sem precisar bater na porta da Lei Rouanet,
de banco suspeito
ou de algum empresário que descubra na cultura
uma excelente lavanderia emocional.
Porque no Brasil até a memória precisa de patrocinador.
E confesso certa inveja cívica
de algumas figuras públicas
que sempre encontraram generosos amigos do andar de cima.
Uns ganhavam sítio emprestado
quase em regime de posse afetiva.
Era pedalinho pra cá,
adega reformada pra lá,
fruteira gourmet,
cozinha planejada
e o caseiro chamando o visitante pelo apelido íntimo.
Tudo na mais absoluta coincidência republicana.
A amizade brasileira é uma instituição poderosa.
Principalmente quando envolve empreiteira,
banqueiro
ou alguém com acesso privilegiado ao cofre da nação.
Outro, mais cinematográfico,
foi flagrado pedindo alguns trocados a banqueiro posteriormente algemado pela História,
para produzir um filme sobre o próprio pai, ex-presidente da República.
Veja que coisa comovente.
Uns pedem Pix pra pagar aluguel.
Outros levantam milhões sentimentalmente
para homenagear o patriarca em película financiada pelo capitalismo de relações perigosamente próximas.
É quase um gênero nacional:
o documentário patrocinado pela intimidade financeira.
Enquanto isso, o artista comum faz vaquinha virtual.
Vende livro de porta em porta.
Implora curtida.
Troca dignidade por algoritmo.
E ainda precisa ouvir palestra sobre meritocracia de herdeiro.
No Brasil, pobre quando pede ajuda é dependente.
Rico quando pede favor milionário é articulado.
Existe uma poesia cruel nisso tudo.
Porque eu também queria um sítio emprestado.
Mas apenas para ouvir o vento conversando com as árvores
e tentar organizar as lembranças do meu velho pai.
Nada de helicóptero pousando no gramado.
Nenhuma adega climatizada pela Odebrecht.
Nenhum banqueiro disposto a investir milhões em minha saudade.
Só um freezer humilde.
Alguma paz.
E tempo suficiente para transformar memória em literatura.
Mas talvez eu tenha nascido no lado errado da amizade nacional.
Meus amigos oferecem café.
Os deles oferecem propriedades rurais.
Os meus dizem:
“força, guerreiro.”
Os deles dizem:
“usa o sítio pelo tempo que precisar.”
A diferença entre as classes sociais brasileiras
talvez esteja exatamente nisso:
o pobre ganha conselho motivacional;
o poderoso ganha patrimônio por amizade espontânea.
E o mais bonito é observar a indignação seletiva do país.
Quando o artista pobre tenta captar recurso cultural,
aparece imediatamente um fiscal de boteco berrando:
“mamata da cultura!”
Mas quando figurões circulam entre fazendas emprestadas,
reformas misteriosas
e favores bancários cinematográficos,
a elite filosofa sobre perseguição política, narrativa e contexto histórico.
O Brasil não é um país.
É uma grande série de humor involuntário
escrita por roteiristas alcoolizados.
Mesmo assim, continuo procurando meu amigo milionário.
Vai que aparece um desses magnatas sensíveis à poesia.
Alguém disposto a financiar não um escândalo,
mas apenas um livro.
Embora, pensando bem…
no Brasil contemporâneo,
talvez seja mais fácil conseguir um sítio presidencial
do que patrocínio sincero para literatura.
#poetaacdepaula
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 14/05/2026