MEDALHAS E COROAS
Há gente que olha para o espelho procurando o tempo perdido.
Outros procuram defeitos, marcas, rachaduras da existência.
Mas há quem finalmente descubra que o rosto também escreve biografia.
Cada ruga não nasceu do nada.
Veio depois de uma madrugada mal dormida esperando filho voltar.
Depois da condução lotada às seis da manhã.
Depois do amor que deu certo…
e principalmente dos que não deram.
Ruga não é ferrugem da beleza.
É assinatura da sobrevivência.
Tem sulco que nasceu de tanto rir em mesa de bar simples,
com copo americano e coração cheio de esperança.
Tem marca feita pela lágrima escondida no banheiro do trabalho
para ninguém descobrir o cansaço.
E os cabelos brancos…
Ah, os cabelos brancos…
A juventude chama de velhice.
A vida chama de arquivo.
Cada fio branco é um documento carimbado pelo tempo.
Prova de que a pessoa atravessou tempestades
sem deixar o caráter afundar.
Tem gente nova com alma vencida.
E tem senhoras e senhores carregando no olhar
uma juventude que o calendário não consegue matar.
Porque envelhecer não é derrota.
Derrota é endurecer por dentro.
Bonito mesmo é encontrar alguém que, depois de tantas pancadas,
ainda oferece café, conselho e sorriso.
Essas rugas são medalhas.
Condecorações silenciosas de quem não fugiu da batalha cotidiana.
De quem enterrou sonhos e mesmo assim plantou outros.
De quem perdeu pessoas amadas
e ainda teve coragem de continuar amando.
Os cabelos brancos são coroa.
Não de rei distante sentado em trono de ouro.
Mas de gente comum que venceu boletos, preconceitos, filas, dores, saudades e humilhações
sem perder completamente a ternura.
Existe uma realeza escondida nas esquinas do mundo.
Ela pega ônibus, faz mercado na promoção,
guarda remédio na bolsinha
e carrega fotografias antigas dentro da carteira.
São majestades anônimas.
O tempo, quando passa com dignidade,
não destrói beleza.
Ele inaugura outra.
Uma beleza menos apressada.
Menos vaidosa.
Mais verdadeira.
Porque chega uma idade
em que o rosto já não precisa convencer ninguém.
Ele apenas conta história.
E quem viveu de verdade
vira biblioteca sem precisar abrir a boca.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 07/05/2026