AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos
A REALIDADE E A JUSTIÇA
O fórum abre cedo.
A esperança chega antes.
A justiça… bem, a justiça costuma enfrentar trânsito.
Não sei se o leitor frequenta corredores judiciais. Recomendo prudência. Há lugares onde o tempo envelhece mais rápido, e o fórum é um deles. Basta observar os bancos gastos, os ventiladores fatigados e as pilhas de processos empilhadas como pequenas ruínas administrativas da alma humana.

Naquela manhã, uma senhora segurava exames médicos contra o peito com a solenidade de quem carrega a própria biografia clínica. Ao lado dela, um homem de camisa social excessivamente usada ensaiava um depoimento em silêncio. Movia os lábios discretamente, como fazem os endividados, os apaixonados e os réus.

O Brasil produz diariamente essas três categorias em escala industrial.
Os advogados cruzavam os corredores em velocidade litúrgica. Pastas sob o braço, olheiras nos olhos e uma fé profissional curiosamente semelhante à dos vendedores de loteria: trabalham sempre entre a estatística e o milagre.

Não os critico.
Neste país, sobreviver já exige certa ficção jurídica.
Do lado de fora, ambulantes vendiam café e coxinha na porta do tribunal. Achei a cena particularmente elegante do ponto de vista filosófico: o povo tentando garantir o almoço diante do edifício onde outros discutiam solenemente o direito constitucional de continuar almoçando.

A realidade brasileira possui um sarcasmo estrutural.
Lá dentro, ouviam-se palavras respeitáveis: equidade, razoabilidade, ampla defesa, dignidade da pessoa humana. Expressões robustas, muito bem alimentadas semanticamente. Enquanto isso, no ponto de ônibus em frente, trabalhadores aguardavam condução sob um calor de derreter ideologia e coluna vertebral.

A fome raramente lê jurisprudência.
Mas convém não cometer injustiça contra a própria justiça — frase circular, reconheço, embora apropriada ao tema. Existem homens e mulheres honestos naquele mecanismo cansado. Juízes sérios. Defensores públicos heroicamente sobrecarregados. Servidores que carimbam papéis com a resignação metafísica de monges urbanos.
O problema talvez esteja no tempo.
A justiça possui rito.
A necessidade possui urgência.
E urgência não compreende linguagem cartorária.

Há aposentados aguardando decisões enquanto o corpo negocia diretamente com a velhice. Há mães litigando pensão alimentícia diante de crianças que crescem mais rápido que os processos. Há trabalhadores que vencem ações justamente quando já perderam saúde suficiente para aproveitar a vitória.

Nisso a realidade demonstra certa crueldade de romancista russo escrito sob calor tropical.
No café do térreo, dois advogados discutiam garantias constitucionais com notável entusiasmo intelectual. Atrás deles, um faxineiro recolhia copos plásticos e migalhas de pão de queijo sem participar do debate sobre igualdade.
Observei a cena longamente.
O Brasil inteiro talvez seja isso:
uns discutem direitos;
outros limpam discretamente os restos da discussão.

Quando o expediente terminou, as luzes do fórum começaram a apagar lentamente. A senhora dos exames desceu a escadaria segurando uma decisão provisória. Não parecia feliz. Também não parecia derrotada. Tinha apenas aquela expressão profundamente brasileira dos que aprenderam a sobreviver entre o carimbo e o desencanto.
Fiquei olhando enquanto ela desaparecia na multidão do fim da tarde.

Depois acendi um cigarro imaginário — porque certas reflexões exigem fumaça, ainda que literária — e concluí que a justiça talvez seja como aqueles rádios antigos de cozinha: falha às vezes, chia bastante, demora a funcionar… mas o povo continua ligando todas as manhãs, talvez por medo de descobrir o tamanho exato do silêncio.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 04/05/2026
Alterado em 04/05/2026
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