O SORTEIO DOS BOLETOS
O Sorteio dos Boletos
A cidade anda devendo até o próprio silêncio.
Devem o aluguel, o remédio, a geladeira parcelada em doze vezes sem juros — mentira contábil inventada por algum poeta do capitalismo moderno. Devem o almoço de ontem e, dependendo do bairro, já estão devendo até o bom-dia.
As pesquisas dizem que mais de oitenta por cento da população está endividada. O número impressiona os economistas, mas não assusta o cidadão comum. Brasileiro já nasce familiarizado com prestação. Tem gente que aprende primeiro a falar “carnê” e só depois aprende “esperança”.
E o mercado percebeu isso antes de todo mundo.
Existe uma máxima das vendas: o melhor produto para vender é aquele que falta e todo mundo quer. Ou precisa.
Os bancos entenderam perfeitamente.
Ninguém oferece dinheiro para quem está tranquilo. Crédito não gosta de paz financeira. Crédito gosta daquele sujeito olhando o teto às três da manhã, fazendo conta no ventilador. O gerente chama isso de oportunidade. O cliente chama de “me salva só esse mês”.
E assim seguimos.
Com a corda no pescoço, abraçamos a âncora achando que ela vai boiar.
O empréstimo chega educado, sorridente, quase romântico. Tem aplicativo bonito, música suave na propaganda e uma moça dizendo que acredita nos seus sonhos. Os juros vêm escondidos no rodapé, tímidos como parentes inconvenientes em festa de casamento.
Aí começa o campeonato nacional da sobrevivência parcelada.
Você pega dinheiro caro para pagar dívida cara. Depois renegocia a renegociação da renegociação anterior. A prestação diminui feito milagre de televendas, mas a dívida cresce como massa de pão esquecida no calor.
O brasileiro não paga mais contas.
Administra tragédias por vencimento.
Existe até hierarquia emocional dos boletos. Tem o boleto ameaçador. O boleto dramático. O boleto que vence amanhã e fica te encarando da mesa como cachorro abandonado.
E chega um momento em que o sujeito entra oficialmente para o clube dos inadimplentes.
Sem cerimônia. Sem música. Sem faixa de boas-vindas.
Só ligações.
Muitas ligações.
O telemarketing de cobrança já desenvolveu intimidade maior que muito parente. Eles sabem onde você mora, onde trabalha e provavelmente conhecem até seu signo. Ligam de manhã, de tarde e naquela hora sagrada do banho, quando o cidadão finalmente acredita que terá cinco minutos de dignidade.
“Senhor, temos uma proposta imperdível.”
Interessante como toda proposta imperdível vem sempre depois da perda.
Outro dia pensei que seria bonito existir um quiosque no shopping vendendo esperança.
Promoção de fim de semana.
Leve duas doses de otimismo e ganhe um abraço sem juros.
Imagine uma barraquinha de camelô oferecendo coragem em dez vezes sem entrada. Fé com cashback emocional. Recomeço com garantia estendida.
Mas aí o celular vibrou outra vez.
Cobrança.
Recusei.
Olhei para os boletos espalhados na mesa como quem observa cavalos antes de uma corrida clandestina.
E comecei o sorteio.
Porque chega uma fase da vida em que a gente não escolhe mais o que pagar.
Escolhe apenas qual desastre pode esperar até o mês que vem.
No fundo, o brasileiro não perdeu a esperança.
Só está tentando renegociá-la.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 01/05/2026