O LEGADO QUE CORRE NO SANGUE E NÃO SE APAGA
O Legado que Corre no Sangue e Não se Apaga”
Sempre inicio minha fala, quando se trata de Alfredo Gomes, com uma frase que já se tornou mais que apresentação — tornou-se compromisso:
“O pioneiro atleta negro brasileiro a participar de uma olimpíada.”
E já me perguntaram, com aquele desconforto educado:
“Mas precisa dizer que ele era negro?”
Precisa.
Porque há histórias que só ficam completas quando se diz aquilo que tentaram esconder.
E Alfredo não foi apenas pioneiro.
Foi pioneiro apesar de tudo.
Apesar de um tempo que não aplaudia corpos negros — apenas os tolerava quando vitoriosos, e mesmo assim, com reservas.
Apesar de um país que muitas vezes preferiu esquecer do que reconhecer.
Por isso, dizer “negro” não é limitar — é restituir.
E o que foi restituído não termina nele.
Continua.
O legado de Alfredo Gomes não ficou preso a medalhas, nem à memória distante de uma conquista.
Ele se multiplicou.
Filhos da miscigenação, Walter, Helena, Giovanna e Maria Helena não esbanjam melanina.
Mas, nas veias, corre aquilo que não se dilui:
a ancestralidade.
Netos, bisneta e tataranetas de Alfredo Gomes, respectivamente, eles sabem — e se orgulham — de, como se diz, terem os pés na senzala.
Não como prisão do passado,
mas como consciência de origem.
Walter, aos 73 anos, corre.
Corre por saúde, dizem alguns.
Mas isso é só a superfície.
Walter corre por promessa.
Corre por memória.
Corre porque, em 1963, ao perder o avô, fez um pacto silencioso com o tempo:
manter vivo o sonho.
E esse sonho tem nome, tem rua, tem multidão —
a Corrida de São Silvestre.
Cada passo de Walter não é apenas movimento.
É continuidade.
Helena, aos 46, traz no corpo outras ondas.
Já foi boleira, enfrenta o mar no surf, e agora reencontra na corrida um novo território de resistência.
Treina. Persiste. Se prepara.
Porque também quer alinhar seu corpo à mesma linha simbólica —
a da São Silvestre.
E então vêm as novas gerações.
Giovanna, 12 anos.
Maria Helena, 9.
No tatame, escrevem outra forma de permanência.
A luta agora é corpo a corpo — mas a essência é a mesma.
Disciplina. Força. Superação.
Giovanna já carrega títulos: campeã estadual do Rio Grande do Norte, quinta colocada no campeonato brasileiro de judô — Região Nordeste II.
Maria Helena campeã da Copa Natal de Judô, segue no mesmo caminho, aprendendo cedo que herança não é peso:
é impulso.
E assim, o legado se move.
Não como estátua.
Mas como gesto.
Há quem olhe e veja apenas uma família.
Mas há quem entenda:
ali está uma linha que não foi interrompida.
A miscigenação, tantas vezes usada como argumento para diluir histórias, aqui falha.
Porque o que vem de Alfredo não se dissolve.
Se transforma.
Se espalha.
Se reinventa.
E permanece.
Por isso, sigo dizendo — e direi quantas vezes for necessário:
O pioneiro atleta negro brasileiro a participar de uma olimpíada.
Porque essa frase não é apenas sobre ele.
É sobre todos que vieram depois.
É sobre Walter correndo contra o tempo.
Sobre Helena atravessando fases.
Sobre Giovanna e Maria Helena projetando o futuro no tatame.
É sobre um Brasil que tentou esquecer —
mas não conseguiu apagar.
Porque há legados que não dependem da cor da pele para existir.
Mas dependem da coragem de serem lembrados.
E esse — corre vivo.
No sangue.
Na memória.
E no passo firme de quem não aceita desaparecer
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 17/04/2026