AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos
NA DANÇA DO TEMPO

NA DANÇA DO TEMPO
O tempo, às vezes, se comporta como filme fotográfico antigo: só se revela no escuro. E é justamente nesse escuro — das omissões, das conveniências, das oportunidades e dos apetites — que muita gente mostra, enfim, ao que veio. É ali que a fantasia perde o vinco, que a pose escorre, que a máscara cai.

E quando cai, não raro o susto é menor que a confirmação, porque, no fundo, muita coisa neste país nunca foi exatamente segredo; foi apenas tolerada, maquiada, empurrada para debaixo do tapete da pressa, da distração e, sobretudo, da preguiça de pensar.

O eleitor brasileiro, salvo honrosas exceções, anda muitas vezes como um romeiro de urna, mais devoto de sigla do que de princípios, mais fiel à paixão partidária do que ao exame da realidade, mais disposto a repetir slogan do que a investigar biografia. Vota-se como quem torce, defende-se como quem idolatra, absolve-se como quem precisa proteger uma crença.

Poucos se dão ao trabalho de perguntar quem é esse sujeito fora do palanque, o que defendeu ontem, com quem se alia hoje, a quem serve quando ninguém está olhando. Porque no palanque quase todo farsante aprende cedo a conjugar verbos nobres — combater, proteger, moralizar, reconstruir, salvar —, mas depois da eleição muitas dessas promessas descem do carro de som e sobem direto para o necrotério da palavra pública. Viram letra morta antes mesmo de envelhecer.

Houve também os que nem esconderam o que pensavam. Antes mesmo de se aproximarem da cadeira do poder, já rosnavam contra instituições, desdenhavam da liturgia democrática, ameaçavam a ordem constitucional como quem ensaia bravata em mesa de bar. Muita gente ouviu, muita gente riu, muita gente relativizou. Chamaram de estilo, chamaram de sinceridade, chamaram de coragem. Mas havia ali, desde sempre, não um tropeço de linguagem, e sim um projeto.

Quando a caneta chegou à mão, o delírio ganhou gabinete, a ameaça tentou virar método, a afronta quis virar norma. E por muito pouco a barraca não veio abaixo. Chutaram o pau da democracia como quem acredita que país é curral e Constituição é papel que se rasga quando atrapalha o capataz. Não conseguiram demolir tudo, é verdade, mas deixaram rachaduras — e rachadura institucional, quando não se trata, vira infiltração moral na parede inteira da República.

Nessa caminhada rumo ao Planalto, desfila de tudo um pouco: messias de ocasião, patriotas de aluguel, moralistas de vitrine, salvadores com prazo de validade e discurso plastificado. A maioria chega embrulhada num verniz de brilho enigmático, esse brilho de feira política que de longe parece virtude e de perto cheira a oportunismo com perfume importado.

Teve um que só faltou vestir capa de super-herói no combate à corrupção. Posou de justiceiro, subiu no altar da opinião pública, encarnou o homem incorruptível da vez, como se a ética lhe tivesse sido entregue em cartório celestial. Mas o tempo, esse velho laboratorista da verdade, também revela negativos humanos — e revelou. Quando a máscara caiu, o quase herói mostrou-se menos paladino que personagem de conveniência, menos republicano que arrivista, menos homem de princípios que carreirista de ocasião.

Feito Macunaíma de toga imaginária, aproveitou a repercussão da própria cruzada para subir mais um degrau na escadaria da influência, aquela escadaria lustrosa que leva direto ao altar da caneta, ao vício do mando.
E eis que o destino, com seu humor de navalha, tratou de completar a ironia: o ex-caçador da corrupção hoje se acomoda politicamente ao lado de quem carrega condenação por corrupção no currículo da História e ainda empresta apoio a outro que não se constrange em defender publicamente que a soberania nacional se curve ao imperialismo americano. Sem rubor, sem pudor, sem disfarce.

Como se independência fosse detalhe, como se pátria fosse ativo negociável, como se país pudesse ser entregue na bandeja geopolítica dos interesses alheios, temperado a minério raro e servidão tropical. E o mais espantoso nem é a submissão declarada, é o séquito. Sempre aparece uma corte de vassalos voluntários disposta a chamar de pragmatismo aquilo que é, no fundo, ajoelhamento, a chamar de sensatez aquilo que não passa de capitulação.

E assim se vai tentando naturalizar o inaceitável: a ideia de que o Brasil, para não sucumbir, deva se dobrar, se alinhar, se vender, se entregar. Como se dignidade nacional fosse luxo, como se soberania fosse capricho, como se a espinha dorsal da República pudesse ser terceirizada. Paralelamente, na mesma coreografia de cinismo, acena-se com a tal anistia. Anistia para quê, para quem? Para os que, por azar ou incompetência, não concluíram a empreitada golpista? Para os que trataram a democracia como obstáculo?

Para os que acharam razoável rasgar o pacto civilizatório porque a urna não lhes beijou a vontade? No fundo, o que se tenta vender como pacificação é muitas vezes apenas o velho truque da borracha seletiva: apagar o crime quando o criminoso é politicamente útil.
Mas a História, quando não é covardemente adulterada, costuma cobrar caro de quem transforma crime contra a democracia em acidente de percurso. Não foi acidente, não foi excesso, não foi folclore cívico — foi teste, foi ensaio, foi método, foi ameaça concreta.

A democracia brasileira, imperfeita, desigual, tantas vezes traída, ainda assim segue sendo o único salão onde o povo pode, ao menos em tese, trocar os músicos sem incendiar o baile. E há sempre quem queira fechar esse salão, apagar as luzes, trancar as portas e chamar isso de ordem.
Mas o tempo dança.

E nessa dança ele desmente discursos, descasca personagens, desmonta santos de ocasião, expõe os mercadores do caos e ilumina, mesmo que tarde, a biografia real dos que tentaram posar de redentores. Porque o tempo pode até tardar, pode cochilar, pode parecer distraído em certos períodos da História.

Mas quando resolve revelar o filme, não há filtro, marketing ou patriotismo cenográfico que impeça a imagem de aparecer. E a imagem, quase sempre, vem mais nítida no escuro.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 09/04/2026
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