AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

ABSURDO COTIDIANO

 

Retrato da vulnerabilidade tentando manter a pose, despretensão elevada ao limite da impossibilidade, ou paradoxal equilíbrio do nada? Diz o senso comum que quem não tem roupa, não tem onde cair morto. Mas o nosso personagem — esse herói do despojo — subverte a lógica da física e do vestuário. Lá vai ele, atravessando a sala ou o pensamento: pelado, mas de mãos no bolso. É um gesto de uma elegância invisível. Onde estão os bolsos? Não importa. Para quem domina a arte da crônica interna, o bolso é um estado de espírito. É aquele esconderijo onde guardamos as chaves de portas que já não existem e as moedas de um tempo que já não compra nada.

 

É a verdadeira anatomia do conforto. Estar nu é uma ausência de proteção, mas as mãos ali, na altura do quadril, fingindo o abrigo do brim ou da alfaiataria, conferem ao sujeito uma autoridade mística. Ele não está apenas sem roupa; ele está "à vontade".O ombro: Relaxado, como quem espera o ônibus. O olhar: Perdido no horizonte das utilidades domésticas. As mãos: Ocupadas com o vazio. Há uma poesia profunda na falta de bolsos reais. É a liberdade total de quem não precisa carregar identidade, celular ou o peso do mundo. Se a mão está "no bolso" de um corpo nu, é porque o homem finalmente entendeu que sua única propriedade é o próprio gesto.

 

O teatro da vida muitas vezes nos exige camadas. Ternos para a importância, capas para o frio da indiferença. Mas o cronista sabe que a verdade aparece nesse desajuste: quando a gente se sente vestido apenas pela própria intenção. O "Pelado de Mão no Bolso" é o santo padroeiro dos distraídos e dos poetas. Ele nos ensina que, mesmo quando a vida nos tira até a última peça de dignidade têxtil, ainda podemos manter o estilo. Afinal, a elegância não está no que se veste, mas na segurança de saber exatamente onde guardar as mãos enquanto o mundo repara na nossa nudez.

 

o autor é escritor, poeta, compositor, e dramaturgo

 

 

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 22/02/2026
Alterado em 23/02/2026
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