AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

RELIGIÃO, JUSTIÇA E POLÍTICA

No começo era o Verbo, depois veio a vírgula, e por fim, o adendo em letras miúdas. A Religião prometeu o céu, A Justiça prometeu equilíbrio, A Política prometeu o resto — inclusive o que não tinha. 

 

A Religião construiu templos com janelas voltadas para o infinito e cofres voltados para o presente. Fala de eternidade com voz serena, mas às vezes se irrita com perguntas muito terrenas.

 

A Justiça usa venda nos olhos — dizem que é para não ver privilégios. Mas tropeça curiosamente sempre no mesmo degrau social. Sua balança é sensível:

pesa gramas quando julga pobres e toneladas quando julga poderosos — ou seria o contrário? Depende do vento que sopra na toga.

 

A Política é artista de circo: equilibra promessas no arame farpado da realidade, cospe fogo em palanque e engole sapo nos bastidores. Abraça o povo em campanha e o esquece em gabinete climatizado.As três juram que trabalham para nós. Nós, que trabalhamos para elas. A Religião diz: “Tenha fé.” A Justiça diz: “Tenha paciência.” A Política diz: “Tenha esperança.” E o povo tem…contas a pagar. Não se trata de blasfêmia, é apenas constatação com leve ironia: há sermões que soam como discursos, há discursos que parecem absolvições, e há sentenças que mais parecem parábolas. No fundo, as três são irmãs siamesas: uma reza, outra julga, outra governa — e às vezes trocam de papel sem avisar a plateia.

 

Mas não sejamos injustos (olha ela aí), há fé que consola sem explorar, há juiz que honra a balança, há político que lembra o próprio endereço eleitoral mesmo depois da posse. O problema não são as instituições, são os espelhos. Quando o homem entra no templo, no tribunal ou no plenário, leva consigo o mesmo coração —às vezes generoso, às vezes ambicioso, quase sempre humano demais. Religião sem compaixão vira negócio. Justiça sem coragem vira carimbo. Política sem ética vira leilão.

 

E o povo? O povo continua acreditando, porque, apesar de tudo, ainda acende vela, ainda protocola recurso, ainda vota. Talvez a maior fé do brasileiro não seja em santos, nem em juízes, nem em partidos — mas na improvável possibilidade de que um dia essas três senhoras respeitáveis decidam sentar-se à mesma mesa não para dividir poder, mas para multiplicar dignidade. Até lá, seguimos. Com humor para não enlouquecer, com ironia para não endurecer, com esperança — essa teimosa clandestina — que insiste em não prescrever.

 

Mas sejamos menos líricos e mais cirúrgicos, porque há momentos em que a poesia precisa trocar a pena pelo bisturi. A Religião, quando se distrai do sagrado, descobre que o dízimo rende mais que o milagre. Transforma culpa em moeda corrente e vende indulgência parcelada no cartão celestial. Há púlpitos que ecoam mais estratégia do que espiritualidade. Deus vira cabo eleitoral de luxo — onipresente nos discursos, ausente nas práticas.

 

A Justiça, essa senhora de toga engomada, adora citar latim, o latim é elegante — principalmente quando o réu não entende. Entre um habeas corpus e um corpus delicto, o corpo que mais sofre é o do cidadão comum, que aprende cedo que “todos são iguais perante a lei” é frase constitucional e ficção operacional. Há sentenças que descem rápidas como elevador de cobertura. Outras sobem devagar, escada de serviço, com corrimão quebrado.

E a Política… ah, a Política é o teatro mais antigo depois da fé. Promete pontes onde não há rios, cria crises para vender soluções, discursa contra privilégios com a carteira recheada de exceções. Ela não mente — ela “reformula a narrativa”. Não trai — “realinha interesses”. Não erra — “recalibra prioridades”.

 

E nós assistimos, comendo pipoca cara, pagando ingresso em forma de imposto,acreditando que na próxima temporada o roteiro melhora. Não sejamos panfletários — não é sobre esquerda ou direita. É sobre cima e baixo. Sobre quem decide e quem aguenta. Sobre quem legisla e quem parcela. A Religião às vezes pede silêncio. A Justiça pede prazo. A Política pede voto. E o povo pede desconto. Cruel? Talvez. Mas a realidade não usa filtro sépia. O mais irônico é que as três falam em moral. Moral pública, moral cristã, moral administrativa. Moral é substantivo nobre — pena que viva em ambiente insalubre. Quando a Religião esquece a compaixão, vira empresa. Quando a Justiça esquece a equidade, vira protocolo. Quando a Política esquece o povo, vira condomínio fechado.

 

E ainda assim — ainda assim — há padres que dividem o pão, juízes que enfrentam tempestades, políticos que recusam o banquete. Eles existem. São poucos, mas existem — como árvores teimosas nascendo no asfalto quente. Talvez o problema não seja a fé, nem a lei, nem o voto. Talvez o problema seja o caráter que atravessa todos eles como corrente elétrica mal isolada. A Religião, a Justiça e a Política não caem do céu — saem do mesmo barro que nos molda. E se a matéria-prima é frágil, não adianta dourar a fachada. No fim, a pergunta não é quem governa, quem julga, quem salva. A pergunta é: quem vigia o poder quando o poder aprende a rezar, a legislar e a absolver a si mesmo?

 

E enquanto essa resposta não vem, seguimos com humor ácido — único antisséptico disponível — para que a indignação não apodreça nem vire apenas aplauso automático. Porque pior do que a hipocrisia institucional é a acomodação coletiva. E essa, convenhamos, não precisa de milagre, nem de sentença, nem de eleição. Precisa de espelho.

 

 

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 18/02/2026
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