Brincadeira é Coisa Séria
Dizem que a vida é dura.
Mas ninguém avisa que ela também é breve.
E talvez por isso mesmo —
brincar seja um ato de coragem.
Brincadeira é coisa séria.
Séria como boleto vencido.
Séria como diagnóstico médico.
Séria como a verdade que a gente evita no espelho.
Eu não vou virar cinzas antes da hora.
Não vou me reduzir a restos
de expectativas alheias,
a pó de frustração,
a arquivo morto de mim mesmo.
Estou no mundo de passagem —
mas não estou aqui de passagem por mim.
Há quem atravesse a vida como corredor apressado
na Corrida de São Silvestre:
olha o relógio, mede o tempo, calcula o desgaste.
Eu prefiro sentir o percurso.
Tropeçar na própria pressa.
Rir do próprio fôlego curto.
Porque existir não é apenas chegar.
É brincar no trajeto.
Brincar com as palavras
como quem empina pipa entre prédios.
Brincar com as ideias
como quem rabisca o mundo e descobre que ele pode ser redesenhado.
Não vim ao mundo à toa.
Se vim de passagem,
que seja como quem deixa pegadas.
Como quem escreve no muro invisível da memória alheia:
“Eu estive aqui. E fiz sentido.”
Há quem leve tudo pesado demais.
Transforma riso em imprudência,
sonho em infantilidade,
esperança em ingenuidade.
Mas eu aprendi que o adulto que não brinca
vira estátua de si mesmo.
E estátua só serve para ser observada —
nunca para viver.
Brincadeira é coisa séria
porque salva.
Porque oxigena.
Porque impede que a alma vire repartição pública
com carimbo vencido.
Estou no mundo de passagem —
sim.
Mas enquanto passo,
eu danço.
Enquanto o tempo corre,
eu canto.
Enquanto a vida aperta,
eu reinvento.
Não vim ao mundo à toa.
Vim para provocar sorrisos pensantes.
Vim para transformar cansaço em crônica.
Vim para lembrar que o riso
é um ato político da alma.
E quando eu partir —
que não sobrem cinzas de conformismo,
mas brasas de sentido.
Porque brincar, meu amigo,
é coisa séria.
E viver
é a maior delas.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 14/02/2026