AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos
OLHO DA RUA
A menina dos olhos do olho da rua
não sabe das dores do mundo que eu vi.

Ela passa — leve —
como quem atravessa a vida sem pedir licença nem desculpa.
Salta a poça d’água, dribla o buraco da calçada
e ri para um nada qualquer,
talvez para o próprio reflexo no vidro da loja fechada.

Não sabe.
E que sorte a dela.

Não sabe do barulho seco da porta batendo para sempre.
Não sabe do pão contado em fatias de silêncio.
Não sabe da vergonha dobrada no bolso
junto com documentos vencidos e promessas em atraso.

A menina dos olhos do olho da rua
acha que o mundo é grande porque ainda não mediu suas paredes.
Acha que o tempo demora
porque nunca teve pressa de sobreviver.

Eu vi o mundo quando ele não estava bonito para foto.
Vi mãos que pediam sem palavras
e bocas que falavam demais para esconder o medo.
Vi a dignidade sentada no meio-fio
esperando um ônibus que nunca passou.

Ela não sabe das noites que se alongam
feito corredores de hospital.
Não sabe que certas manhãs
nascem já cansadas.

O olho da rua a protege
com sua cegueira provisória.
Ela é a menina dos olhos porque ainda brilha,
porque ainda acredita que tropeços são acidentes
e não método.

Eu já sei.
Sei que o mundo ensina com cotoveladas.
Sei que a esperança tem prazo curto
e juros altos.
Sei que a dor se especializa
e muda de nome para continuar trabalhando.

Mas quando ela passa —
a menina —
o mundo finge ser melhor por um segundo.
E esse segundo me engana.

Talvez seja por isso que eu sigo andando.
Para ver se, num cruzamento qualquer,
a dor desaprende
e o mundo, envergonhado,
resolve aprender com ela.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 10/02/2026
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