ORAÇÃO
Creio em Deus Pai Todo-Poderoso,
mas não nesse Deus temperamental,
que acorda de mau humor
e resolve inundar o mundo
porque a criação não saiu como no folder.
Creio em Deus,
mas não no que confunde obediência com medo
e chama terror psicológico de pedagogia divina.
Creio no Criador do céu e da terra,
mas não no Deus que cria filhos livres
e depois se ofende quando eles pensam.
Vaidade demais para quem inventou o infinito.
Creio em Jesus Cristo,
mas não nesse Cristo sequestrado,
com CPF, CNPJ e bancada parlamentar.
Esse aí não multiplicou pães —
multiplicou intolerância.
Creio no Cristo que perdoou a adúltera,
não no que apedreja em nome da família tradicional
e ainda pede dízimo no final do apedrejamento.
Creio nos Deus que nasceu pobre,
mas não no Deus que odeia pobres
quando eles deixam de ser poéticos
e começam a incomodar.
Creio em Deus que foi crucificado,
mas não no Deus que exige morte
para se sentir satisfeito.
Se isso é justiça divina,
é código penal de tirano.
Creio que ele ressuscitou,
mas não nesse milagre usado como ameaça:
“Creia ou queime”.
Fé à ferro e fogo, não ilumina — incinera.
Creio no Espírito Santo,
mas não nesse espírito histérico
que vive incorporando preconceito
em boca de pastor engravatado.
Creio na Igreja,
mas com alergia institucional.
Toda vez que Deus ganha prédio,
alguém perde humanidade.
Creio no perdão dos pecados,
inclusive dos pecados cometidos
por quem se acha representante exclusivo de Deus
com crachá celestial e língua de condenação.
Creio na vida eterna,
mas desconfio do céu que só entra quem pensa igual.
Isso não é paraíso —
é condomínio fechado da alma.
Porque, se Deus é Pai,
não espanca.
Se é amor,
não ameaça.
Se é eterno,
não se comporta como chefe inseguro.
Creio em Deus.
Mas no Deus que suporta perguntas,
não no que se ofende com dúvidas.
Amém.
(E se isso for heresia, que Deus — o de verdade — me entenda.)