RESISTÊNCIA
No meu tempo de moleque - faz tempo - lendo gibis de bang-bang dei de cara com uma palavra que sempre achei diferente e me encantava pela sonoridade. Ela aparecia sempre que os índios ou os brancos preparavam uma armadilha para os que passavam pelo estreito desfiladeiro, e as pedras, literalmente rolavam sobre eles. Era uma avalanche.
Mudando de pato pra ganso, hoje acordei atrasado. Não por culpa do despertador, mas porque dormi errado. Segundo um coach que nunca dorme, o erro foi meu. Abro a rede social como quem abre a janela e, em vez de vento, entra um exército. Não marcham: ensinam. Não respiram: motivam. Não vivem: monetizam. É uma avalanche. Não de pedras ou de neve — de certezas. Assim que abri a rede social dei de cara com uma aula. Duas. Vinte e três. Em cinco minutos aprendi a viver melhor do que vivi em cinquenta anos. Ensinar virou epidemia. Todo mundo sabe algo, e quem não sabe ensina mesmo assim, porque a ignorância, bem editada, também vende.
Nunca houve tanto professor sem escola, tutor sem pupilo, coach sem divã, mestre sem mestre. Ensina-se a acordar cedo, a dormir melhor, a respirar fundo, a enriquecer em sete dias úteis, a amar em três passos e a esquecer em um reels. Há coach de coragem, coach de luto, coach de prosperidade com fundo neutro e sorriso treinado. Tem professor que nunca leu, mentor que nunca mentiu — só exagerou — e tutor que tutela a própria vaidade. Antigamente chamávamos isso de palpite. Hoje é conteúdo. Noel talvez cantasse : conteúdo infeliz?
Há quem ensine a ensinar, quem ensine a vender o ensino e quem venda a promessa de que ensinar é fácil — desde que você compre o curso certo. A vida, essa antiga professora rude, foi demitida. Experiência não dá engajamento. Dúvida não viraliza. Silêncio não converte.
A vida real, coitada, não tem legenda, não cabe em carrossel e insiste em dar errado fora do roteiro. Fora do pré-estabelecido e combinado. Mas não importa. Se deu errado, alguém ensina como transformar o tombo em oportunidade e o vexame em autoridade. Agora tudo é método. Método quântico, método disruptivo, método ancestral com design moderno. Até a ignorância ganhou mentoria. E o mais curioso: ninguém mais erra. Mas não importa. Se deu errado, alguém ensina como transformar o tombo em oportunidade e o vexame em autoridade.
Fracasso virou case. Derrota virou gatilho emocional. Mentira virou posicionamento. O sábio antigo falava pouco porque sabia muito. O sábio moderno fala muito porque precisa provar que existe. O algoritmo não premia quem pensa, premia quem repete. Não recompensa quem aprofunda, mas quem simplifica até a alma caber em 30 segundos.
Fracassou? Crie um curso. Errou? Vire especialista no erro. Caiu? Ensine a cair com elegância em doze módulos e um bônus. Nunca se falou tanto sobre propósito com tão pouco propósito real. Nunca se gritou tanto “seja você mesmo” com tanta gente igual. Todos sabem o caminho, ninguém mostra os calos. Todos vendem o topo da montanha, ninguém entrega a subida.
E assim seguimos, formados em tudo, especialistas em nada, certificados pela pressa, aplaudidos pelo eco. No meio da avalanche, o cidadão comum tenta aprender a viver, mas escorrega em links, tropeça em slogans e se perde entre promessas de sucesso instantâneo. Talvez o verdadeiro mestre hoje seja aquele que ousa dizer: “não sei”. E talvez a maior aula seja fechar a tela, olhar o mundo e reaprender, lentamente, o que nenhum coach ensina: a dúvida, o tropeço, e a beleza discreta de não virar produto.
E eu, no meio da avalanche, sem método, sem mentoria, sem link na bio, desconfiado dessa sabedoria instantânea, aprendo do jeito antigo: errando devagar, pensando em silêncio e desconfiando profundamente de quem promete respostas prontas para uma vida que nunca foi simples. Porque quando todo mundo ensina, aprender vira ato de resistência.