AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

RESISTÊNCIA

No meu tempo de moleque - faz tempo - lendo gibis de bang-bang dei de cara com uma palavra que sempre achei diferente e me encantava pela sonoridade. Ela aparecia sempre que os índios ou os brancos preparavam uma armadilha para os que passavam pelo estreito desfiladeiro, e as pedras, literalmente rolavam sobre eles. Era uma avalanche.

 

Mudando de pato pra ganso, hoje acordei atrasado. Não por culpa do despertador, mas porque dormi errado. Segundo um coach que nunca dorme, o erro foi meu. Abro a rede social como quem abre a janela e, em vez de vento, entra um exército. Não marcham: ensinam. Não respiram: motivam. Não vivem: monetizam. É uma avalanche. Não de pedras ou de neve — de certezas. Assim que abri a rede social dei de cara com uma aula. Duas. Vinte e três. Em cinco minutos aprendi a viver melhor do que vivi em cinquenta anos. Ensinar virou epidemia. Todo mundo sabe algo, e quem não sabe ensina mesmo assim, porque a ignorância, bem editada, também vende.

 

Nunca houve tanto professor sem escola, tutor sem pupilo, coach sem divã, mestre sem mestre. Ensina-se a acordar cedo, a dormir melhor, a respirar fundo, a enriquecer em sete dias úteis, a amar em três passos e a esquecer em um reels. Há coach de coragem, coach de luto, coach de prosperidade com fundo neutro e sorriso treinado. Tem professor que nunca leu, mentor que nunca mentiu — só exagerou — e tutor que tutela a própria vaidade. Antigamente chamávamos isso de palpite. Hoje é conteúdo. Noel talvez cantasse : conteúdo infeliz?

Há quem ensine a ensinar, quem ensine a vender o ensino e quem venda a promessa de que ensinar é fácil — desde que você compre o curso certo. A vida, essa antiga professora rude, foi demitida. Experiência não dá engajamento. Dúvida não viraliza. Silêncio não converte.

 

A vida real, coitada, não tem legenda, não cabe em carrossel e insiste em dar errado fora do roteiro. Fora do pré-estabelecido e combinado. Mas não importa. Se deu errado, alguém ensina como transformar o tombo em oportunidade e o vexame em autoridade. Agora tudo é método. Método quântico, método disruptivo, método ancestral com design moderno. Até a ignorância ganhou mentoria. E o mais curioso: ninguém mais erra. Mas não importa. Se deu errado, alguém ensina como transformar o tombo em oportunidade e o vexame em autoridade.

 

Fracasso virou case. Derrota virou gatilho emocional. Mentira virou posicionamento. O sábio antigo falava pouco porque sabia muito. O sábio moderno fala muito porque precisa provar que existe. O algoritmo não premia quem pensa, premia quem repete. Não recompensa quem aprofunda, mas quem simplifica até a alma caber em 30 segundos.

 

Fracassou? Crie um curso. Errou? Vire especialista no erro. Caiu? Ensine a cair com elegância em doze módulos e um bônus. Nunca se falou tanto sobre propósito com tão pouco propósito real. Nunca se gritou tanto “seja você mesmo” com tanta gente igual. Todos sabem o caminho, ninguém mostra os calos. Todos vendem o topo da montanha, ninguém entrega a subida.

 

E assim seguimos, formados em tudo, especialistas em nada, certificados pela pressa, aplaudidos pelo eco. No meio da avalanche, o cidadão comum tenta aprender a viver, mas escorrega em links, tropeça em slogans e se perde entre promessas de sucesso instantâneo. Talvez o verdadeiro mestre hoje seja aquele que ousa dizer: “não sei”. E talvez a maior aula seja fechar a tela, olhar o mundo e reaprender, lentamente, o que nenhum coach ensina: a dúvida, o tropeço, e a beleza discreta de não virar produto.

 

E eu, no meio da avalanche, sem método, sem mentoria, sem link na bio, desconfiado dessa sabedoria instantânea, aprendo do jeito antigo: errando devagar, pensando em silêncio e desconfiando profundamente de quem promete respostas prontas para uma vida que nunca foi simples. Porque quando todo mundo ensina, aprender vira ato de resistência.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 08/02/2026
Comentários
Site do Escritor criado por Recanto das Letras