Quem vence faz festa quem perde, faz barulho, grita, põe a boca no trombone. Na praça pública da vida, a banda nunca toca para todos. Há sempre um coreto reservado aos vencedores — confete importado, discurso ensaiado, selfie com filtro de grandeza. Quem ganha não anda: desfila. Quem ganha não fala: proclama. E chama de mérito o que muitas vezes foi sorte, empurrão ou herança bem lavada.
Já o perdedor… ah, o perdedor não perde apenas o jogo. Perde o direito ao silêncio. Se reclama, é fraco. Se cala, é cúmplice. Se insiste, é ressentido. A derrota, no Brasil profundo das relações humanas, vem sempre acompanhada de uma aula moral gratuita — dada, claro, por quem nunca esteve do outro lado da fila.
E enquanto uns comemoram com espumante morno e outros engolem seco a injustiça, surge ele: o empreendedor da dor alheia. O vendedor de lenços. Não chora, não ri, não perde nem ganha — lucra. Transforma lágrima em oportunidade, sofrimento em tendência, tragédia em mantra. Parcela em três vezes sem juros, porque até a tristeza precisa caber no orçamento. O vendedor de lenços não pergunta quem tem razão. Pergunta quantos choram. Quanto maior o pranto, maior o estoque. Se a lágrima for coletiva, melhor ainda: desconto para atacado emocional.
Vivemos tempos curiosos: o aplauso virou moeda, a indignação virou nicho, e a empatia… bem, essa anda em falta — talvez porque não dê lucro imediato. Quem ganha faz festa e acha que o mundo é justo. Quem perde reclama porque sente na pele que não é. E no meio desse teatro, alguém sempre encontra um jeito elegante de cobrar ingresso. No fim do dia, a banda desmonta, o confete vira lixo e o lenço usado vai para o bolso — não de quem chorou, mas de quem soube vender consolo sem nunca precisar sentir dor.
E a vida segue, essa velha conhecida formada em ironia, provando que nem toda festa é vitória, nem toda reclamação é fraqueza, mas todo choro… ah, todo choro sempre desperta o faro de quem sabe transformar lágrima em negócio. Porque no grande espetáculo humano, o drama é de muitos, a festa é de poucos, e o lucro… quase sempre, de quem nunca entrou em cena.
Depois que a festa acaba, sobra o chão sujo. Ninguém dança sobre ele. Os vencedores já foram embora, certos de que deixaram um legado — quando, na verdade, deixaram restos. O perdedor, esse, ainda está ali. Não reclama mais. Cansou. Aprendeu que há queixas que ecoam e há queixas que apenas cansam a garganta. Engole a própria razão como quem engole remédio amargo: sem água, sem testemunha. O vendedor de lenços também mudou. Já não sorri. Faz contas.
Descobriu que a dor repetida perde valor de mercado. Lágrima antiga não viraliza. Tristeza persistente não comove — incomoda. E assim o choro vai ficando silencioso, quase educado. Chora-se baixo, para não atrapalhar a próxima festa. Para não ser acusado de estragar o clima. Botar água no chopp. Para não virar estatística, nem meme, nem pauta. O mundo gosta mesmo é do riso alto dos que ganham. O resto… o resto é ruído. Mas às vezes, só às vezes, no canto da praça vazia, alguém dobra um lenço já usado, guarda no bolso e segue andando.
Não venceu. Não lucrou. Não fez discurso. Apenas entendeu — tarde, mas inteiro — que há perdas que não pedem aplauso, há choros que não precisam de vendedor, e há festas às quais nunca fomos convidados porque nelas se celebra exatamente aquilo que nos faltou.
E a vida continua, discreta, sem banda. Com menos ironia, menos plateia, e uma lucidez que não faz barulho. Que talvez seja a única coisa que não se vende. Ao menos por enquanto!