AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos
TELHADO DE VIDRO
Telhado de Vidro

Eu não moro em casa.
Eu moro em sobrevivência.
Acho que tenho teto.
Todo dia descubro que tenho vidro.

Acordo cedo e olho para cima — hábito antigo.
Não olho para o relógio. Olho para o céu.
Não para saber se vai chover, mas para medir o risco. Nuvem carregada. Notícia atravessada. Boleto com nome e sobrenome. O céu nunca está neutro.

Já tentei reforçar a estrutura. Empilhei silêncios. Rebati paredes com frases prontas. Construí uma laje de rotina: acordar, trabalhar, calar, dormir. Funcionou por um tempo. Depois veio a chuva fina. A pior. A que não faz barulho, mas infiltra.
O telhado de vidro não quebra de uma vez. Primeiro embaça. Depois pinga. Só então estilhaça — sempre quando ninguém está olhando. Ou quando todos estão.

Eu sei que sou visto. No trabalho. Na fila. No espelho. Não existe privacidade quando o teto é transparente. Todo mundo opina. Todo mundo observa. Todo mundo atira pedra — geralmente com a mão limpa.

Também sei que não posso revidar. Quem tem telhado de vidro aprende cedo a desviar o olhar. Aprende a falar baixo. Aprende a fingir que não doeu.

À noite, quando a cidade desacelera só o suficiente para eu ouvir o meu próprio cansaço, eu escrevo. Não por coragem. Por necessidade. Escrever é passar o rodo no vidro. Tirar o excesso. Deixar o mínimo visível para continuar respirando.
Não escrevo para denunciar. Nem para confessar. Escrevo para não endurecer. Porque quem endurece vira parede. E parede não sente o tempo. Só desaba de uma VEZ .

Eu não quero um teto mais forte. Quero um céu menos hostil. Quero um intervalo. Um dia sem previsão. Um silêncio que não seja medo.
Enquanto isso, sigo.
Com cuidado.
Desviando das pedras.
Olhando para cima — apesar de tudo.
Porque, mesmo cansado,
eu ainda prefiro um telhado de vidro
a viver sem ver o céu.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 04/02/2026
Alterado em 04/02/2026
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