AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

CONFISSÕES DE UM ANÔNIMO TREINADO

De forma sincera e franca, da vida eu virei craque. Não desses que levantam troféus, fazem gols decisivos que inflamam a torcida ou viram verbete. Craque de atravessar o dia sem estardalhaço, sem perder a pose e paciência, de driblar a falta invisível, de seguir jogando quando o gramado é inclinado e prejudica o domínio da bola. Aprendi o básico: olhar antes do passe, respirar antes da resposta, guardar o fôlego para o minuto seguinte.

 

Não pintei a Casa Branca. Falta-me tinta, convite e vocação para o símbolo. Também não acendi a fogueira que queimou Joana d’Arc — cheguei tarde à História e cedo demais ao cansaço. Minha revolução é doméstica: apagar incêndios pequenos, desses que começam no bolso, passam pelo humor e ameaçam a noite.

 

Nunca derrubei estátuas nem governos. No máximo, mudei de calçada. Não escrevi manifestos; escrevi listas de compras. Não libertei povos; libertei horários. Há uma política miúda nisso tudo: a arte de escolher o que não fazer quando o mundo exige performance. A recusa discreta é um método subestimado. A bagunça é uma ordem não desejada.

Sei reconhecer o perigo pelo cheiro. Sei quando a promessa vem com juros. Sei que a verdade costuma chegar atrasada e pedir desculpa. Essas habilidades não dão palco, mas rendem sobrevivência. E sobrevivência, convenhamos, é um talento coletivo mal creditado.

 

Assisti à História pela televisão, com o volume baixo pra não fazer alarde. Aprendi que os grandes gestos custam caro e cobram depois. Preferi o parcelamento ético: um cuidado aqui, um silêncio ali, um riso fora de hora para não virar pedra. Ironia é meu colete; humor, minha muleta elegante.

 

Não fui herói, nem vilão — fui gente. E ser gente, hoje, exige técnica. Dedicação e foco! Treina-se o olhar para não endurecer, o ouvido para não repetir, a língua para não ferir por esporte. No placar oficial, isso não conta. No placar íntimo, mantém o jogo em andamento.

 

Da vida, virei craque. Não por glória, mas por insistência. Não fiz História — fiz caminho desviando das pedras. E sigo, com a bola colada ao pé, desviando do óbvio, evitando a fogueira, passando longe das paredes brancas. Porque, às vezes, mano, o maior feito é terminar o dia ainda humano.

 

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 03/02/2026
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