Por vingança — confesso sem rubor — eu faço canções de amor.
Não por acreditar nelas, veja bem, mas para contrariar o mundo, essa entidade de mau humor que acorda cedo apenas para azedar o café alheio. O amor, hoje, é quase um ato subversivo: não rende curtidas, não vira manchete, não derruba governos. Justamente por isso, escrevo.
Há quem componha por esperança. Invejo-os com a discrição dos céticos educados. Eu componho por insistência. Uma espécie de teimosia hereditária, dessas que atravessam gerações como móveis pesados que ninguém quer, mas ninguém joga fora. Faço canções de amor como quem bate à porta errada sabendo que ninguém vai abrir — e ainda assim bate, educadamente, três vezes.
O amor, convenhamos, anda desacreditado. Foi mal administrado, terceirizado, parcelado em doze vezes sem juros e com altos encargos emocionais. Ainda assim, resiste. Não por mérito, mas por hábito. E é esse hábito que me comove: amar como quem continua respirando mesmo depois de tantas más notícias.
Machado talvez sorrisse de lado — aquele sorriso que não concede absolvições — e diria que o amor é uma ilusão necessária, dessas que mantêm o mundo em funcionamento enquanto a razão tira férias. Eu concordaria, claro, mas acrescentaria: é também uma vingança elegante. Enquanto tudo conspira para o cinismo, insistir no amor é quase uma afronta de fraque.
Faço canções de amor porque falhei em todas as outras tentativas de ser prático. Não aprendi a odiar com método, nem a desistir com eficiência. O amor, apesar de tudo, ainda é o melhor desperdício do tempo. E tempo, como sabemos, é a única coisa que o sistema nos cobra com juros altíssimos.
No fim, talvez eu não acredite no amor. Mas escrevo como quem aposta na loteria sabendo das estatísticas. Não pela chance de ganhar, mas pelo direito de sonhar alguns minutos. E se isso for vingança, que seja. Se for teimosia, pior ainda: dessas que não pedem desculpa.
Porque enquanto o mundo endurece, eu amoleço as palavras.
E isso, meu caro leitor — se ainda houver um —
já é uma forma discreta de resistência.