MANUAL PRÁTICO DOS SENTIMENTOS INFLAMÁVEIS
A paixão chega vendendo azeite vestida de urgência. Fala alto, promete mundos e fundos, pede curtidas, não pede desculpas. Jura que agora vai, sem pensar que talvez, quem sabe, um dia a casa cai. O ódio vem depois, com planilha e memória seletiva e radicalizada. Aprende om os coachs da internet, escolhe culpados, organiza o coro e bagunça o coreto. Entre um e outro, o radicalismo oferece a moldura: estreita, firme, confortável. Cabe tudo ali — desde que o resto do mundo fique de fora.
Na praça pública, a vida virou megafone. Quem fala baixo é suspeito. Quem hesita, inimigo. A dúvida foi aposentada por justa causa. O nuance, demitido sem aviso prévio e sem direito a indenização. A complexidade não passa pela catraca, nem mesmo em dia de catraca livre.
A política, essa velha senhora cheia de caras e bocas, de unhas gastas, e atitudes reprováveis, observa. Sabe que a paixão rende palanque e o ódio, engajamento. Sabe também que o meio do caminho, tenha pedras ou não, não viraliza. Então empurra com a barriga. Um empurrão aqui, outro ali. Nada pessoal: é método. O incêndio ilumina mais que a lâmpada.
Dizem que é preciso tomar partido, defender um lado, uma bandeira, como se defende um TCC. Como se o mundo fosse mesa de bar e a conta, simples. Tomam-se partidos como se toma remédio sem bula: dose alta, efeito rápido, colateral garantido. A paixão vira verdade absoluta; o ódio, política pública; o radicalismo, atalho moral. Funciona — até parar de funcionar.
No cotidiano, a engrenagem com dor nas juntas, range. A fila anda para trás. O salário não tem pernas para acompanhar o discurso. A vida, indisciplinada, insiste em misturar gente. O ônibus não pergunta em quem você votou antes de frear ou dar de cara com o muro. A panela não ferve por ideologia. A rua não obedece ao cartaz.
Há quem confunda coragem com gritaria. Há quem chame crueldade de franqueza. Há quem sorria enquanto corta. Tudo em nome de um bem maior — sempre maior do que quem sobra. A ironia é que o futuro prometido vive adiando a entrega.
Talvez o gesto mais político seja o menos vistoso: sustentar a contradição sem explodir o outro. Discordar sem transformar o desacordo em esporte. Recusar o conforto do extremo quando ele pede aplauso. Mas isso dá pouco like. Não vira mantra. Não cabe no meme.
A vida, teimosa, segue sem legenda. Não escolhe lados — atravessa. E, enquanto os sentimentos inflamáveis pedem fósforo, ela insiste no difícil: apagar o fogo sem posar para a foto, sem virar manchete.