AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos
COISAS DA VIDA!
COISAS DA VIDA
A vida não avisa. Chega como quem pede licença já entrando. Derruba um copo, desloca um plano, muda o lugar dos móveis da alma. Depois, senta no sofá e age como se sempre tivesse morado ali.

Há dias em que tudo parece caber no bolso: o troco certo, o sorriso breve, a esperança dobrada em quatro. Em outros, nada fecha — nem a conta, nem o abraço, nem o pensamento antes de dormir. Coisas da vida, dizem. Como se dizer fosse um modo de aceitar sem entender.

A vida gosta de ironias pequenas. Dá guarda-chuva no dia de sol e esquecimento quando chove. Ensina cedo o que só fará sentido tarde. Às vezes, ensina e não cobra prova; em outras, reprova sem aula. O método é falho, mas insiste.

No ponto de ônibus, alguém envelhece um pouco. No elevador, outro aprende a sorrir por educação. Na fila do banco, o tempo vira matéria palpável: pesa nos ombros, coça no silêncio, boceja. A vida passa por ali sem senha preferencial.

Há encontros que salvam a semana e despedidas que duram anos. Há sonhos que murcham na gaveta e medos que criam raízes no peito. A vida mistura tudo com colher de pau: não tem medida, não tem receita. Queima às vezes, acerta outras.

Trabalha-se muito para merecer pouco. Ama-se errado tentando acertar. Ri-se para não chorar — e chora-se quando o riso falha. Coisas da vida, repetimos, como quem assina um recibo invisível.

No fim, a vida não se explica. Se atravessa. Cambaleante, imperfeita, insistente. Entre um tropeço e outro, a gente aprende a chamar de cotidiano o que, no fundo, é milagre mal-disfarçado. E segue. Porque seguir também é uma dessas coisas da vida.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 01/02/2026
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