A vida é um baú. Não romântico, não simbólico. Um baú de propina moral, desses que ninguém admite possuir, mas todo mundo sabe onde fica. Está sempre ali, no meio da sala, servindo de mesa, palanque e álibi.
Dentro, não há surpresas. Há método. Ironias organizadas por conveniência, maracutaias embrulhadas em discurso técnico, trambiques batizados de “exceção necessária” e o velho jeitinho brasileiro — esse vírus elegante que se adapta a qualquer organismo, inclusive aos que juram ser imunes.
O cidadão comum — essa figura estatística que só vira gente em época de eleição — aproxima-se do baú com respeito exagerado. Aprende cedo que não se deve mexer muito. Abre um pouco, olha rápido, fecha. Procura justiça e encontra jurisprudência seletiva. Procura dignidade e recebe um sermão sobre esforço individual. Procura futuro e ganha uma palestra motivacional gravada em 1998.
O baú, diga-se, não é injusto. Ele apenas reconhece hierarquias. Há mãos que o abrem com facilidade pornográfica. Outras são tratadas como suspeitas por ousarem tocar na tampa. Para uns, o cadeado é decorativo; para outros, é sentença.
Existe, claro, o fundo falso. Sempre existiu. Ali repousam os privilégios mais bem conservados da nação: heranças morais sem herdeiros visíveis, absolvições antes do julgamento, indignações sob encomenda. O pó ali não é sujeira — é história varrida para baixo do tapete institucional.
Quando alguém ameaça escancarar o baú, instala-se o pânico civilizado. Discursos inflamados, notas de repúdio, comissões investigativas com prazo indeterminado. Fecha-se a tampa com força, troca-se a fechadura e declara-se o assunto superado em nome da estabilidade — palavra que sempre estabiliza quem já está em cima.
O baú nunca esvazia. Ele apenas muda de narrativa. Mesmo saqueado, sobra justificativa. Mesmo flagrado, sobra dúvida. A verdade, quando aparece, vem magra, atrasada e desacreditada — ninguém mais acredita nela, de tanto vê-la sendo usada como figurante.
E assim seguimos, geração após geração, abrindo o mesmo baú, fingindo surpresa, exercitando com excelência o esporte nacional da cara de espanto. O velho finge que não sabe. O novo finge que vai mudar. Ambos fingem que não colocaram nada lá dentro.
A vida é um baú, sim.
Mas o veneno não está no conteúdo.
Está na naturalidade com que aceitamos a chave passando de mão em mão.