OLIMPO DE LATA
Olimpo de Lata
No Olimpo brasileiro, os deuses não moram no céu.
Moram no palanque, no estúdio e no grupo da família.
Lula reina como Zeus de sindicato, barba branca, raio social na mão esquerda e memória seletiva na direita. Governa pelo trovão da nostalgia. Quando fala, chove passado: “já fiz”, “já houve”, “já deu certo”. Distribui nuvens de promessas como quem distribui bênção em romaria. Se perguntam pelo preço, responde com mito. Se cobram recibo, invoca perseguição divina.
Foi derrubado do Olimpo, dizem.
Mentira. Deuses não caem.
Apenas encenam exílio para voltar maiores.
Bolsonaro entra em cena como Ares de quintal, deus da guerra sem estratégia, armado de palavrão e convicção rasa. Não pensa batalhas, provoca incêndios. Não governa cidades, incendeia conversas. Sua lança é o ataque diário, sua tática é o caos permanente. Onde passa, o diálogo vira escombro.
Não promete futuro.
Promete inimigo.
Não oferece plano.
Oferece alvo.
Se Lula pede fé na memória, Bolsonaro exige fé na raiva. Um distribui esperança reciclada, o outro vende ódio fresco. Ambos sabem: emoção mobiliza mais que realidade.
No templo lulista, a corrupção é pecado prescrito.
No templo bolsonarista, a ignorância é virtude moral.
Um absolve o passado com discurso social.
O outro justifica o desastre com patriotismo gritante.
Ambos odeiam a mesma coisa:
limite.
Limite institucional, limite factual, limite ético. Deus não gosta de limite. Deus exige devoção integral. Questionar é heresia. Criticar é traição. Comparar é blasfêmia.
Lula se fantasia de Prometeu, roubador do fogo popular, mas esquece de contar quem controla o gás. Bolsonaro se imagina Hércules, limpando estábulos morais, enquanto espalha mais sujeira que encontrou.
O povo?
O povo virou oferenda.
Sacrificado em nome da governabilidade de um
e da guerra cultural do outro.
Atena, a razão, foi expulsa a pedradas.
Apolo, a verdade, perdeu o microfone.
Hermes virou assessor de rede social.
E Cronos, o tempo, devora promessas como sempre.
No fim, Lula e Bolsonaro se parecem mais do que admitem.
Precisam do caos para existir.
Precisam do inimigo para governar.
Precisam da fé cega para sobreviver.
Não querem cidadãos.
Querem fiéis.
Porque cidadão cobra.
Fiel aplaude.
No Olimpo de lata, os deuses brigam, os seguidores berram e o país sangra em silêncio administrativo. E quando um cai, o outro agradece — não para mudar o jogo, mas para herdar o altar.
Aqui, trocar de deus não muda o destino.
Só muda o sermão.
E o inferno, como sempre, continua lotado de gente real.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 18/01/2026