AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

ENTRE O SONHO E O PESADELO!

ENTRE O SONHO E O PESADELO

O cidadão acorda com o despertador do sonho — aquele que promete futuro em parcelas suaves — e adormece com o barulho do pesadelo, que cobra à vista. No trajeto entre um e outro, atravessa a cidade como quem atravessa um espelho embaçado: reconhece os contornos, desconfia das promessas, tropeça nas mesmas calçadas. As vitrines anunciam felicidade com desconto. Os outdoors juram redenção em letras grandes. Nos semáforos, discursos piscam em verde e vermelho, pedindo pressa, pedindo medo, pedindo fé. O cidadão aprende a atravessar correndo, não por coragem, mas por hábito. À esquerda da rua, garantem que o sonho foi roubado. À direita, afirmam que o pesadelo é merecido. Ambos falam alto, ambos usam gravata ou camiseta, ambos exigem aplauso. O cidadão escuta com atenção econômica — a que sobra depois do aluguel e da condução — e segue, porque parar custa caro. O sonho, quando aparece, vem de terno novo e sorriso ensaiado. Diz que agora vai. Que desta vez é sério. O pesadelo, mais sincero, não promete nada: apenas chega. E chega sempre antes do café.

Nos ônibus lotados, o cidadão divide espaço com certezas alheias. Nos aplicativos, recebe verdades em notificação urgente. Pensar virou luxo; duvidar, suspeita. Quem sonha demais é ingênuo. Quem acorda demais é amargo. Entre um rótulo e outro, a vida passa sem legenda. Chamam isso de esperança responsável. Chamam aquilo de realismo necessário. No meio, o cidadão paga a conta e guarda o troco da dignidade no bolso furado. Não reclama: aprendeu que reclamar vira meme. Prefere o silêncio — esse pequeno abrigo onde ainda cabe um pensamento inteiro. À noite, o sonho tenta se deitar ao seu lado. O pesadelo já está lá, roncando. A cidade apaga as luzes, mas mantém acesas as promessas. O cidadão fecha os olhos e entende, com a lucidez que dói, que não vive entre extremos. Vive em uso. E assim amanhece: o sonho vendido como futuro,o pesadelo cobrado como presente, e o cidadão — essa matéria-prima discreta —seguindo entre ambos, até que a fronteira desapareça e reste apenas o chão onde se pisa sem acordar.

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 16/01/2026
Alterado em 16/01/2026
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