AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

É PRECISO DAR UM JEITO!

O cidadão caminha com os bolsos furados e a cabeça cheia — não de ideias próprias, mas de entulhos alheios. Carrega discursos como quem carrega sacos de cimento:pesam, endurecem, e nunca constroem a casa prometida, e ele não acredita no slogan“meu sonho, minha vida!” De um lado da rua, gritam que ele é o retrato da injustiça histórica, um eterno coitado que precisa ser salvo — ainda que nunca perguntem se ele quer ou se sabe nadar. Do outro, berram que ele é o câncer danação, parasita treinado, inimigo infiltrado no corpo da pátria. Entre um grito e outro, o cidadão atravessa a faixa invisível da sobrevivência diária,desviando de palavras como quem foge de bala perdida.

 

E descobre que na aldeia global tem mais cacique que índios, e cada cacique, ou futuro pretendente ao cargo, se julga um salvador da pátria. A verdade passa — discreta, magra, malvestida.Não tem assessoria, não sabe berrar, não promete milagres em três parcelas sem juros. Ninguém a escuta. Ela não rende palanque, mas viraliza nas narrativas dos marketeiros políticos. O cidadão aprende cedo que pensar dói. Pensar exige silêncio, diz o velho ditado que silêncio “é ouro”, mas o silêncio hoje é suspeito. Quem não grita, apanha.Quem pondera, trai. Quem duvida, é vendido por trinta moedas ou menos.

 

Assim, ele escolhe o mais seguro: repete. Repete frases prontas, seu mantra do desespero,  como quem reza para não ser notado. Repete slogans como quem pede desculpa por existir. E cada repetição arranca um pedaço daquilo que um dia ousou chamar de consciência. Nas eleições, vira número. Nos discursos, vira massa. Nas crises,vira culpa. Na vitória alheia, vira figurante — quando muito, plateia, e sabe que na trama deste roteiro, jamais será protagonista. Chamam isso de democracia vibrante. Mas vibra apenas o palco. Nos bastidores, o cidadão paga ingresso caro para assistir à própria exclusão.

 

No fim, cansado de ser trincheira, o cidadão se senta no meio-fio da história. E ali, sentado à beira do caminho, olha para os lados — esquerda e direita passam apressadas, cheias de certezas e vazias de gente. Ele permanece ali, esmagado não por tanques, mas pela força das narrativas. E entende, tarde demais, que o poder moderno não precisa de fuzis: basta contar a história tantas e tantas vezes até que o povo esqueça que também era personagem — e não apenas o chão onde os outros pisam para subir ao palco. E no rádio, ele ouve o Gigante Gentil cantando “É preciso dar um jeito!”

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 16/01/2026
Alterado em 19/01/2026
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