AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos
O ESPELHO TRINCADO DA MORAL
O ESPELHO TRINCADO DA MORAL

Todos se olham no espelho —
mas poucos aceitam o reflexo inteiro.
No país da moral em exposição, o espelho é trincado: cada um escolhe o pedaço que mais lhe favorece.

A virtude aqui é seletiva. Condena-se com fúria o pecado alheio enquanto se passa pano no próprio erro, com a delicadeza de quem varre a sujeira para debaixo do tapete da conveniência. Ética virou artigo sazonal: usa-se quando combina com a roupa do dia.

Há quem grite honestidade com o bolso cheio de atalhos.
Há quem exija decência enquanto negocia princípios em prestações suaves.
E há quem se diga vítima da corrupção — desde que ela não beneficie a sua rua, o seu grupo, o seu lado.

No espelho trincado da moral, o julgamento é rápido e a memória, curta. O que ontem era intolerável hoje ganha justificativa, nota de rodapé e argumento jurídico improvisado. A coerência, cansada, pediu demissão.

As redes amplificam a encenação: indignações performáticas, causas abraçadas por conveniência, virtudes em caixa alta e pecados em letras miúdas. Tudo muito correto — desde que ninguém olhe com atenção demais.

Curioso é que todos se dizem contra o mal, mas poucos largam as vantagens que ele oferece. O problema nunca é o sistema; é sempre o outro. O espelho, claro, não mente — apenas reflete o ângulo escolhido.

E assim seguimos, moralmente impecáveis em discurso, profundamente flexíveis na prática.
O espelho continua ali, trincado, insistente.

Talvez o incômodo não esteja nas rachaduras do vidro,
mas na imagem que ele insiste em devolver —
sem filtro, sem legenda, sem desculpa.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 15/01/2026
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