AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos
O PAÍS DO QUASE
O PAÍS DO QUASE

Vivemos no país do quase.
Quase justo, quase ético, quase sério.
Aqui, a verdade chega mancando e a mentira corre de tênis novo, patrocinada por convicções alheias.

No país do quase, a promessa é patrimônio cultural. Não se cumpre, mas se repete. É herança passada de geração em geração, embrulhada em discursos empolados e laços verde-amarelos ou vermelhos demais — depende da estação. O futuro, coitado, vive em pré-lançamento.

A democracia por aqui é um rascunho: funciona quando convém, falha quando incomoda. A Constituição é citada como poesia — cada um recita o verso que lhe interessa e rasga o resto do livro. Justiça? Quase. Ela chega tarde, cansada, e quando chega já não reconhece os rostos.

O povo — esse figurante principal — assiste ao espetáculo de pé, sem assento marcado. Bate palma quando mandam, vaia quando autorizam e volta pra casa acreditando que participou da peça. Participou sim: como cenário.

No país do quase, a honestidade é slogan, a corrupção é método e a indignação, um hobby de fim de semana. Combate-se o mal com discursos inflamados e pratica-se o mesmo mal em silêncio, desde que ninguém esteja filmando.

Os heróis? Quase heróis.
Os vilões? Quase punidos.
Os culpados? Quase sempre os outros.

E assim seguimos: sobrevivendo de quase, respirando meias verdades, votando em meias soluções, vivendo meias vidas. Um país inteiro em modo rascunho, esperando a versão final que nunca é salva.

Porque, no fundo, o maior projeto nacional não é a mudança.
É o adiamento.

E o quase, esse velho conhecido, continua governando — com maioria absoluta.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 15/01/2026
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