AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

O Operário grita contra o privilégio, mas defende o seu com unhas, dentes e sindicato. Condena o patrão invisível, mas protege o amigo encostado, desde que o crachá seja da mesma cor ideológica. Clama por igualdade, desde que não mexam na sua estabilidade. Exige direitos universais, mas acha perfeitamente justo furar a fila — quando a fila é dele. Denuncia a corrupção como um mal estrutural, mas chama de “erro administrativo” quando o desvio vem do lado certo da história. É implacável com o lucro alheio e indulgente com o próprio benefício. O Operário quebra vidraças alheias gritando revolução, sem perceber que o estilhaço corta primeiro a própria mão.

 

O Patriota defende a moral com a mesma veemência com que dribla o imposto. Exalta a lei, a ordem e a família, mas só até onde a lei não encosta no seu CPF. Grita contra a corrupção apontando o dedo em linha reta, ignorando que o espelho fica sempre atrás do braço estendido. Condena o Estado inchado, mas corre para o balcão quando o benefício tem nome conhecido. Prega mérito, mas herdou o primeiro degrau da escada. Condena a desordem, mas flerta com o autoritarismo quando a democracia demora demais. O Patriota protege seu telhado com bandeira e hino, achando que patriotismo é colete à prova de contradição.

 

No fundo, Operário e Patriota moram no mesmo condomínio moral: paredes frágeis, telhados de vidro e a certeza arrogante de que a chuva só cai na casa do outro. No fim, Operário e Patriota não são inimigos. São sócios. Sócios da mesma tragédia mal contada. Enquanto brigam por narrativas, o telhado de vidro vira teto oficial do país. Chove incoerência, pinga hipocrisia, e ninguém reclama — porque a goteira sempre parece cair no quintal do outro. O Operário descobre tarde demais que o sistema que ele combate aprendeu a falar a sua língua.

 

O Patriota percebe, quando já não adianta, que a ordem que ele defende não o reconhece como aliado. Ambos terminam iguais: desconfiados, frustrados, convictos de que foram traídos sem jamais admitir que ajudaram a construir o altar da própria decepção. E o país? Segue em frente, remendado com slogans, governado por certezas frágeis, habitável apenas para quem lucra com a briga. Os dois continuam gritando. O telhado continua quebrando. E a verdade —essa não sobrevive a estilhaço nenhum. Atiram pedras com convicção, argumentos com raiva e certezas como quem não teme consequência. Mas toda pedra lançada desenha no ar o mapa exato do próprio telhado. E o estilhaço final — sempre pontual —não escolhe lado.

 

E Operário e Patriota, se fossem dedicados a expor suas ideias e incoerências através de músicas, com certeza estariam entre os top dez das paradas de sucesso.

 

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 15/01/2026
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