AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

ANJOS OU DEMÔNIOS?

Dizem por aí que o Brasil virou comunista. Não houve decreto, não tocaram sirenes, ninguém acordou com um retrato de Marx na parede, mas a acusação veio — sempre vem —gritada, digitada em letras garrafais, sem nota fiscal nem rodapé conceitual. O comunismo brasileiro é curioso. Não confisca casas, não estatiza bancos, não fecha empresas, não proíbe lucro. Ao contrário: os bancos engordam, os bilionários sorriem, o mercado respira aliviado e o agronegócio exporta como se o planeta fosse infinito. Mas é comunismo, sim. Porque alguém ousou dizer que fome não é virtude e pobreza não é castigo divino. Aqui, comunismo é dar nome à desigualdade. É regular onde o caos lucra.

 

É lembrar que, gente, também entra no cálculo, não só planilha. Chamam de comunista qualquer coisa que atrapalhe a confortável fantasia de que o fracasso é sempre culpa individual e o sucesso, sempre mérito puro — mesmo quando herdado. O comunismo brasileiro é tão eficiente que convive com a Bolsa, com os juros, com o rentismo, com o lobby, com o Congresso fisiológico e com o capital internacional de mãos dadas, como velhos amigos num jantar caro. Não há partido único, não há censura oficial, não há tanques nas ruas. Mas há palavras que viraram armas, e conceitos que morreram de uso indevido. “Comunista” virou xingamento genérico, tipo chamar de bruxa quem entende de erva, ou de herege quem sabe ler.

 

No fundo, não temem o comunismo. Temem a ideia perigosa de que o jogo possa ter regras. De que o tabuleiro, não pertence só a quem chegou primeiro. De que o Estado exista não apenas para salvar bancos, mas gente comum. E assim seguimos: num país onde o comunismo é invisível, o capitalismo é voraz, a ignorância é barulhenta e a realidade — essa sim — continua sendo o maior escândalo. Porque no Brasil, o problema nunca foi o “perigo vermelho”. O problema é a falta de cor na consciência de quem prefere o medo ao pensamento. No Brasil, o comunismo é sempre iminente — mas nunca chega.

 

É como o apocalipse anunciado por quem lucra vendendo abrigo. Gritam “comunismo!” Enquanto fazem PIX, assinam streaming, operam na Bolsa, exploram mão de obra, reclamam do Estado e correm para ele quando o lucro tropeça. Chamam de comunista qualquer política que não os coloque no centro do mundo. Qualquer freio no privilégio vira ditadura. Qualquer regra vira censura. Qualquer tentativa de justiça vira ameaça existencial. O problema nunca foi Marx. O problema é o espelho. Porque o verdadeiro terror não é perder a liberdade — é dividir o conforto. Não é a estatização — é a possibilidade de o jogo deixar de ser viciado. Não é o vermelho da bandeira — é o rubor da consciência quando a desigualdade deixa de ser naturalizada.

 

E assim seguimos, num país onde o comunismo serve de desculpa, o capitalismo serve de álibi e o povo serve de estatística. No fim, não há ditadura alguma. Há um medo ancestral de que alguém pergunte demais, entenda demais e aceite de menos. Porque enquanto o “perigo comunista” não passa, passa o tempo, passa a vida, passa o futuro — e o medo, bem alimentado, segue governando sem nunca ter sido eleito.

Outrossim —palavra elegante para dizer que a incoerência também pode usar terno, hashtag e bandeira amarrada no pescoço. Há textos por aí despidos de realidade, mas vestidos de fervor, que insistem em tratar um soldadinho de chumbo como se fosse general da História. Guindado a mito, prometeu mundos e fundos sem jamais apresentar o mapa, apenas o grito. Sob o verde e amarelo —cores sequestradas, lavadas a jato ideológico —discursou contra minorias como quem aponta culpados para esconder o próprio vazio.

 

Atacou mulheres, ridicularizou diferenças, transformou dor social em piada e política em ringue. E quando o Estado ousa lembrar que fome não é ideologia e miséria não vota por convicção, gritam: “compra de votos!”. Mesmo fora do calendário eleitoral, mesmo diante do prato vazio, mesmo diante do óbvio. A caridade, para eles, só é legítima quando vem do altar ou do selfie. Política social, jamais. Isso seria perigoso demais: poderia ensinar o pobre a não agradecer eternamente. O mito, dizem, não pode ser execrado. E concordo —mitos não se execram, se desmontam. Peça por peça. Com fatos. Com leis. Com memória. Sua situação atual não pede aplauso nem apedrejamento. Pede Constituição. Pede Código Penal. Pede serenidade institucional — essa virtude que os autoritários desprezam e a democracia exige. Nada de revanchismo. Nada de fogueira. Nada de martírio fabricado.

 

Apenas, o rito civilizatório que ele tanto despreza quando achou que o poder era extensão do próprio ego. Porque a lei não é vingança. É limite. E limite é tudo aquilo que o egocêntrico confunde com perseguição. No fim, o soldadinho de chumbo não derreteu por causa dos inimigos, da imprensa, do sistema ou das minorias. Derreteu ao sol da realidade, essa força implacável que mito nenhum suporta por muito tempo. E que fique claro: não se julga aqui o personagem, mas os atos. Não se condena a crença, mas a conduta. Não se apaga a História — apenas se recusa a reescrevê-la com tinta de fanatismo. Porque numa democracia madura, (sem piadinhas) ninguém está acima da lei. Nem os que se acham enviados, nem os que gritam mais alto, nem os que confundem silêncio institucional com autorização para o abuso. O mito passa. A lei fica. E o país, cansado de salvadores, segue aprendendo — a duras penas — que chumbo não sustenta a nação e que a justiça, quando chega sem ódio, é o único antídoto contra o autoritarismo travestido de fé.

 

Não nos esqueçamos, porém, que tanto o Mito, quanto o Sapo Barbudo já foram elevados ao patamar de salvadores da pátria, e nenhum deles, jamais foi um anjo de candura, e ambos por seus atos, lembrando aqui que nenhum deles é inocente, têm em comum um período de estágio no fundo de uma cela. Afinal é impossível plantar tomate e colher melancia.

 

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 12/01/2026
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