AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

 

Ainda estou aqui. E vibro. Não apenas pelo Globo de Ouro nas mãos de Wagner Moura, nem pelo brilho internacional de O Agente Secreto, mas também pela premiação a Fernanda Torres e ao filme que dá título a este texto, e porque, vez ou outra, a memória rompe o silêncio como um grito que se recusou a morrer no porão. O cinema fez o que os arquivos oficiais tentaram esconder: acendeu a luz. Os chamados “anos dourados” — essa expressão polida, ensaboada, quase perfumada — tinham ouro, sim. Mas era ouro derretido em medalhas militares, em condecorações dadas a quem confundiu pátria com quartel e ordem com medo. De 1964 em diante, o Brasil aprendeu a sussurrar. A imprensa gaguejava. A música falava por metáforas. A poesia virou código Morse. E pensar virou atividade suspeita. Havia progresso, diziam. Havia milagre econômico, diziam. Mas o milagre nunca chegava às celas, nem aos corredores do DOI-CODI, nem aos corpos que desapareciam sem aviso prévio — desapareciam, não morriam: porque até a morte era censurada.

 

Chamaram de “excessos”. Depois de “equívocos”. Por fim, de “versões”. A história, coitada, foi empurrada para um rodapé mal impresso, enquanto o esquecimento ganhava capa dura e prefácio de conveniência. Veio a anistia. Ampla, geral e irrestrita — tão ampla que abraçou vítimas e algozes, tão geral que nivelou tortura e resistência, tão irrestrita que interditou a justiça em nome de uma paz frágil, daquelas que se sustentam no silêncio e não na verdade. Mas a memória não aceita anistia. Ela retorna. Em livros. Em filmes. Em canções. Em premiações internacionais que nos lembram, constrangidas, que o mundo sabe o que tentamos esquecer. Contar a verdadeira história não é abrir feridas: é impedir que elas infeccionem no escuro. É ensinar que democracia não nasce pronta, ela sangra antes. E sangra sempre que alguém pede a volta da noite como se fosse solução.

 

Por isso vibro. Porque quando a arte aponta o dedo, ela não acusa — ela ilumina. E enquanto houver filmes, atores, poetas, cronistas e cidadãos dizendo “ainda estou aqui”, a ditadura seguirá exatamente onde deve estar: no passado, exposta, sem maquiagem, sem nostalgia, sem perdão histórico para crimes que jamais deveriam ter sido esquecidos. Porque país sem memória é território fértil para o retorno do medo com outro nome e o mesmo porão.

 

No fim das contas, o problema nunca foi o passado. O passado, ao menos, já aconteceu. O problema é o presente fingindo demência, olhando para trás e dizendo: “não foi bem assim”, como se a dor precisasse de legenda e a tortura fosse questão de ponto de vista. Há quem peça “virar a página”. Curioso. Nunca vi página virar sozinha quando o livro ainda sangra. Dizen alguns que ditadura não acabou: mudou de roupa, aprendeu a sorrir para as câmeras e descobriu que a memória curta é o melhor golpe de Estado. Por isso, quando a arte insiste, quando o cinema incomoda, quando a história volta a bater na porta, não é provocação — é aviso. Quem esquece demais costuma repetir com entusiasmo. E quem romantiza o porão geralmente nunca desceu até ele. No Brasil, o passado não passa. Ele se candidata.

 

 

 

 

 

 

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 12/01/2026
Alterado em 13/01/2026
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