AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos
PALAVRAS O VENTO LEVA?

Dizem que palavra é vento.
Mentira bem contada.
Palavra é tijolo lançado do décimo andar:
depois que cai, não sobe pedindo desculpa.

Pensamento, enquanto pensamento, é inofensivo.
Circula livre, clandestino, sem CPF.
Mas quando ganha voz,
vira documento registrado em cartório emocional.
Falou? Assinou.
Disse? Protocolou.

A boca não tem freio ABS
nem botão de “editar publicação”.
Não existe “era força de expressão”
que apague a expressão forçada do outro.
A frase saiu torta,
e agora quer voltar alinhada à esquerda da consciência.

Vivemos a era da liberdade de expressão —
esse direito nobre, democrático, bonito na teoria
e perigosamente afiado na prática.
Uma faca de dois gumes:
um corta a censura,
o outro degola a responsabilidade.

Todo mundo quer falar.
Poucos querem sustentar.
Grita-se “é minha opinião!”
como quem grita “é meu carro!”
depois de passar por cima de alguém na faixa.

O microfone amplia a voz,
mas não alonga o caráter.
A rede social eterniza a frase
que o bom senso não revisou.
Print não perdoa,
áudio vaza,
e o “foi brincadeira” chega sempre atrasado,
como pedido de desculpa em feriado nacional.

Há quem confunda sinceridade com grosseria,
franqueza com crueldade,
liberdade com licença poética para ferir.
Mas a palavra, essa danada,
não volta atrás nem com reza brava.
Ela anda para frente,
arrastando consequências no calcanhar.

Falar é um ato político.
Calar, às vezes, é um gesto de inteligência rara.
Porque o que se pensa pode ser revisto,
mas o que se diz vira memória coletiva —
e memória não aceita retratação em letras miúdas.

No fim das contas,
a língua é pequena,
mas o estrago é grande.
E quem acha que pode dizer tudo
em nome da liberdade,
geralmente não gosta
quando a verdade resolve responder no mesmo tom.

Porque palavra dita não volta.
Ecoa.
Ressoa.
E cobra.
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 09/01/2026
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