AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

Há uma classe que não anda nas ruas, apenas sobre elas. Não sente o buraco no asfalto, nem o sol no ponto de ônibus. Circula em corredores refrigerados, onde o ar é neutro e as decisões são tomadas longe do cheiro da vida real. Eles se chamam representantes, mas se reconhecem pelo espelho. Apertam mãos em público, assinando leis em particular — não para o povo, mas para o próprio cofre da alma. São intocáveis. Não por santidade, mas por blindagem. São os intocáveis não por virtude, mas por construção. Criaram códigos com luvas de veludo, parágrafos acolchoados, incisos que funcionam como coletes à prova de Justiça.

 

Quando erram, erram em grupo. Quando caem, caem para cima. Quando respondem, respondem com foro, com prazo, com recurso, com prescrição. A lei, essa senhora de olhos vendados, teve a venda trocada por óculos escuros — não enxerga bem sob holofotes. Construíram para si uma cidadela jurídica, com muralhas feitas de leis sob medida, artigos que se dobram como espelhos e parágrafos que jamais refletem o povo. Legislam em causa própria, como quem escreve um testamento antes mesmo de morrer.

 

Quando erram, erram em bloco. Quando são acusados, se defendem em coro. Quando condenados — raramente — recorrem ao tempo, esse velho aliado que tudo apaga quando se chama prescrição. A justiça, cega por princípio, anda míope por conveniência. Trocaram-lhe a venda por óculos escuros e pediram que não olhasse para cima. Abaixo, ela enxerga bem: o pequeno, o pobre, o sem defesa. Ali, a lei pesa. Ali, a mão é firme. Ali, não há foro, apenas fardo.

 

O país, esse organismo cansado, sobrevive entre impostos e promessas. O salário não acompanha o mês, a comida encurta a lista, a saúde adoece antes do paciente. Enquanto isso, no alto da estrutura, os privilégios engordam: auxílios que não auxiliam, verbas que verborragiam, penduricalhos que sustentam fortunas sem jamais tocar o chão. Chamam isso de estabilidade institucional. Mas o nome é outro: corporativismo blindado. Uma aliança silenciosa para garantir que ninguém caia sozinho — ou caia de verdade.

 

O povo assiste da plateia com ingresso caro: imposto, inflação, fila, remédio que falta, ônibus que quebra, salário que encolhe como roupa lavada em água fervente. Enquanto isso, no camarote do poder, o buffet é farto: auxílio disso, verba daquilo, penduricalho que não pendura — sustenta. Chamam de corporativismo. Mas o nome verdadeiro é confraria do medo: medo de perder privilégios, medo da igualdade, medo de serem julgados com a mesma régua que mede o cidadão comum. Lá fora, o país anda cansado. Cansado de promessas recicladas, de discursos que não sobrevivem à segunda-feira, de reformas que reformam apenas o discurso.

 

Lá fora, o povo assiste. Não por escolha, mas por falta dela. Assiste ao teatro da moralidade, onde discursos inflamados terminam em notas de rodapé. Assiste ao ritual das reformas que reformam apenas a retórica. O jovem planeja a fuga. O velho conta os dias. O trabalhador conta moedas. E o intocável conta votos, benefícios, imunidades. Mas a história tem memória longa e paciência curta.

 

Nenhuma casta é eterna. Nenhuma blindagem é infinita. O tempo, esse juiz sem toga, toca a todos — cedo ou tarde. E quando tocar, não haverá artigo ,inciso ou parágrafo capaz de absolver o que a consciência coletiva já condenou. Porque o povo pode até esperar, mas não esquece. O jovem sonha em ir embora. O velho sonha em sobreviver. O trabalhador sonha em não adoecer. E o político sonha… em não ser tocado. Vivemos tempos estranhos: onde o erro do pobre vira crime, e o crime do poderoso vira tese jurídica. Onde a lei corre — mas sempre atrás, sempre atrasada, sempre ofegante, sempre já sem pernas. E ainda assim, resistimos. Porque a história não gosta de castas eternas. Toda muralha, um dia, vira ruína. Toda blindagem racha. Todo “intocável” acaba tocado — nem que seja pela memória. E a memória, ah… essa não prescreve. E assim seguimos, entre códigos e contradições. Dizem os livros, dizem os tribunais, dizem os discursos solenes — com voz grave e eco de mármore — que somos todos iguais perante a lei. O problema, e nisso o silêncio grita, é que alguns são mais iguais que outros.

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 03/01/2026
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