AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

FILTRAGEM SOCIAL

Na sala de diálise, o tempo tem outro ritmo. O relógio anda devagar, mas o sangue corre apressado, como se tivesse contas a acertar com o corpo. Entra na máquina, passa pelo filtro, sai mais leve — ou pelo menos tentando ser. Volta. E volta de novo. E de novo. Não uma, não duas. Dezenas de vezes. Uma procissão silenciosa dentro de tubos transparentes, como se a vida estivesse provisoriamente em vitrine. O corpo fica ali, sentado, quase imóvel, enquanto por dentro acontece um carnaval microscópico: glóbulos em romaria, plaquetas em fila, toxinas sendo convidadas a se retirar sem direito a réplica. É uma democracia estranha — quem não serve mais, sai. Quem ainda presta, retorna. Quatro horas. Quatro horas em que o sangue faz mais viagens do que muita gente faz na vida inteira. Vai e volta sem reclamar. Não pede férias. Não pede aumento. Só cumpre. E a gente pensa: se o sangue, que é só sangue, insiste tanto em voltar, quem somos nós para desistir? Cada ciclo é um acordo renovado com a existência. Um “fica mais um pouco”. Um “ainda dá”. Um “hoje não”. O sangue aprende cedo o que muitos demoram a entender: viver não é um ato único, é repetição. É insistência. É circular. No fim da sessão, o sangue está cansado, mas experiente. Conheceu o fora e voltou para dentro. Trouxe menos peso, menos ruído, menos veneno. Talvez tenha aprendido alguma coisa — que sair não é o fim, que voltar é parte do processo. A máquina desliga. Os tubos esvaziam. O sangue repousa outra vez no corpo, como quem diz: — Fiz minha parte. Agora, viva. Na diálise, o critério é claro. Quem não serve mais, sai. Quem ainda presta, retorna. Simples. Técnico. Eficiente. Nenhum discurso, nenhuma live, nenhum pedido de vistas. O sangue passa pelo filtro e ali não há espaço para retórica. A toxina não argumenta, não forma bancada, não muda de nome para continuar no sistema. É identificada, separada e descartada. Ponto final. A máquina não se comove com biografia, cargo ocupado ou sobrenome tradicional. Fez mal ao corpo? Rua. Na política, ao contrário, o filtro costuma estar entupido. O que não serve mais circula. E circula bem. Vai e volta, eleição após eleição, mandato após mandato, sempre “purificado” por algum acordo, alguma emenda, algum foro. Toxinas experientes, resistentes ao sistema, que aprenderam a sobreviver dentro do organismo social sem jamais serem eliminadas.Na diálise, o sangue passa dezenas de vezes pela máquina até aprender a diferença entre ficar e sair. Na política, passa-se uma vida inteira e o critério segue confuso: quem deveria sair volta com assessoria nova; quem ainda presta é filtrado para fora, sem anestesia nem nota de rodapé. A máquina de diálise não faz exceção. Não pergunta em quem você votou. Não negocia. Não terceiriza a decisão. Age. Se falhasse como falha o sistema político, o corpo entraria em colapso — e não haveria coletiva de imprensa capaz de explicar. Talvez seja por isso que a diálise funcione: ela não é democrática, é necessária. Não busca popularidade, busca sobrevivência. Não promete futuro, entrega presente. No fim da sessão, o sangue retorna mais limpo, mais funcional, mais honesto consigo mesmo. Já o corpo social sai da urna muitas vezes intoxicado, carregando aquilo que deveria ter sido descartado há décadas. Ironia das circulações: no corpo humano, o filtro salva vidas. na política, o filtro é o problema. E seguimos assim — conectados a uma máquina que funciona, enquanto insistimos em confiar em um sistema que só devolve o que nunca prestou!    

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 03/01/2026
Alterado em 05/01/2026
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