AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos

ENTRE PASSOS E PARADOXOS

 

Tradicional evento esportivo da cidade de São Paulo, a Corrida de São Silvestre comemora em dezembro próximo o seu aniversário de cem anos. Na São Paulo de 1925, a cidade se movia ao ritmo do samba sincopado. Os passos que a modernidade e a tradição deram naquelas duas décadas nem sempre foram harmoniosos. Nas ruas, o murmúrio dos políticos em palcos improvisados prometia um futuro radiante; em outros lugares, a inflação roía os ossos dos trabalhadores de forma demasiado tangível.

 

Nos cafés, intelectuais se lançavam em ferozes debates sobre novas tendências literárias inspiradas pela Semana de Arte Moderna de 1922, enquanto nos rádios recém-adquiridos, as canções de amor de Francisco Alves ligavam corações ansiosos. O crime, como uma longa sombra, incomodava as vielas mal iluminadas. Manchetes abundantes enchiam os jornais com relatos de vilões malfeitores, enquanto a polícia se esforçava para manter a ordem nas ruas da cidade mobilizadas quase inteiramente para o comércio — e nem sempre utilizava métodos adequados.

 

A raça estava incrustada nas estruturas sociais, separando pessoas talentosas e restringindo oportunidades, especialmente no calor dos esportes, cujo destino frequentemente era decidido pela cor da pele. Foi nesse contexto que, à meia-noite de 31 de dezembro, um costume foi criado na cidade: a primeira Corrida de São Silvestre. Em imitação a um evento noturno em Paris, o jornalista Cásper Líbero idealizou uma corrida pelas ruas de São Paulo. Às onze e meia da noite, 48 corredores se reuniram na Avenida Paulista, em frente ao Parque Trianon; alinharam-se ali prontos para atacar o percurso de 6,2 km que se enrolaria ao redor do coração desta cidade.

 

Entre os melhores atletas desta categoria destacou-se Alfredo Gomes, do clube Esperia. Gomes era chamado de “Rei do Fôlego” Ele carregava não apenas o peso da competição, mas também o fardo das expectativas da comunidade que esperava vê-lo como um símbolo de recuperação e resiliência.

 

E ele não desapontou! Quando a corrida começou, os corredores lançaram-se nas ruas, sobre as quais uma fina chuva já havia caído. Na calçada, as multidões que se aglomeravam aplaudiam e gritavam para animar os atletas; mas acima de seus aplausos podia-se ouvir o crepitar das lâmpadas a gás, emprestando sombras dançantes às fachadas dos edifícios.

 

Saindo do ponto de partida com passos firmes e um ritmo constante, Alfredo Gomes rapidamente deixou seus rivais à deriva e os preconceitos que o afligiam. Seu próprio momento de vida parecia poder vir num dia futuro. Gomes cruzou a linha de chegada em primeiro lugar, em apenas 23 minutos e 19 segundos, vencendo não apenas esta corrida, mas também desafiando as antigas barreiras isoladoras criadas por nossa mentalidade social.

 

A Corrida de São Silvestre de 1925 foi muito mais do que apenas uma corrida; foi um reflexo da nossa cidade em transição, onde o progresso caminhava majestosamente de mãos dadas com questões de classe. E Alfredo Gomes, em seu rescaldo, tornou-se tanto um símbolo de salvação quanto de esperança, mostrando que mesmo nos percursos mais árduos, pode-se triunfar com coragem e perseverança

 

AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 27/02/2025
Alterado em 27/02/2025
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