Meu Sangue Vermelho-Rubi
Meu sangue, espesso e quente, não nega a viagem dos séculos. Ele corre em minhas veias como um rio ancestral, trazendo ecos de tambores que ressoam na terra batida. Meu sangue vermelho-rubi tem raízes, e elas se entrelaçam nas trilhas do Velho Continente, onde o sol doura peles e histórias, onde os pés descalços conhecem o ritmo da terra antes mesmo de aprender a caminhar.
Na África, onde os ventos sussurram segredos antigos, onde os olhos brilham como estrelas e os corpos dançam a vida, ali pulsa minha origem. Talvez em um mercado ruidoso de Marrakesh, no toque de um djembê na Guiné, ou nas águas do Zambeze, espelho dos deuses. Meu sangue guarda memórias que não vivi, mas que me pertencem. Ele carrega a força de reis que não usavam coroas de ouro, mas de dignidade. De mulheres que teciam destinos em fios de coragem.
Cada gota de mim vem de longe, atravessou oceanos, resistiu a grilhões, reinventou-se em outros mundos sem perder o compasso do seu começo. Sou a soma de muitas partidas, de muitas chegadas. Meu sangue, vermelho como o pôr do sol africano, tem raízes que não se rompem, apenas se espalham.
E nesse sangue que pulsa, carrego histórias que o tempo não apaga. Ele é tambor que nunca silencia, é batida forte dentro do peito, lembrando-me que sou feito de caminhos longos e memórias vivas. Meu sangue vermelho-rubi não se curva ao esquecimento, pois cada gota contém um nome, um rosto, um sonho que atravessou o tempo.
Vejo minha herança nas palmas calejadas que moldaram a terra, nos olhos que aprenderam a enxergar além das dores, na dança que transforma cicatrizes em poesia. Sou filho de navegantes sem mapas, de guerreiros sem armaduras, de mães que costuraram esperança na pele dos filhos. Minha origem não é um ponto fixo, mas um fluxo contínuo que se espalha, que se reinventa, que segue adiante sem perder o que foi.
E quando o sol toca minha pele, sinto o calor dos meus ancestrais. Quando danço, meus pés repetem gestos de séculos atrás. Quando falo, há um ritmo em minha voz que vem de longe. Meu sangue, vermelho como as terras quentes do Sahel, forte como as raízes das baobás, segue seu curso sem medo. Pois nele há mais que herança – há resistência, há orgulho, há vida.
#poetaacdepaula
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 11/02/2025