AC DE PAULA
Dom Quixote Tupiniquim
Textos
JEITO DE EXISTIR
Eu escrevo por paixão, por impulso, por necessidade. Escrevo porque o pensamento transborda, a imaginação pede passagem, e as palavras, teimosas, recusam-se a ficar em silêncio. O tema? Tanto faz. Política, futebol, cinema, o cotidiano. A chuva que cai mansa ou feroz, o pranto que escorre sem permissão, a esperança que se desfaz na ventania do tempo. Tudo serve, tudo é matéria-prima.

Meu verso nasce branco, mas não se engane, ele se pinta de todas as cores. Veste-se de azul quando fala de céu, de cinza quando se rende à saudade, de vermelho quando o sangue ferve de raiva ou paixão. Ele se insinua, às vezes sussurra, às vezes grita. Fala do sol que insiste em nascer e da lua que vigia os passos dos insones. Conta dos buracos na calçada, das esquinas esquecidas, da lama que enfeita as ruas e dos caminhos que levam a lugar nenhum.

Fala do nada e, sem querer, fala de tudo. E se alguém me perguntar por que escrevo, não há resposta simples. Escrevo porque sim, porque não, porque é preciso. Escrevo devagar, sem pressa de chegar, porque as palavras têm seu próprio ritmo. E se acham que sou louco por isso... Bem, deixem pensar. Afinal, um pouco de loucura sempre foi o tempero dos que ousam sonhar.

Escrevo porque a vida pulsa em versos que não se calam. Há um mundo inteiro escondido nas entrelinhas, nos espaços em branco, nos pontos de interrogação que se acumulam dentro de mim. Escrevo porque as palavras são minhas aliadas, minhas cúmplices, minha forma de existir além do tempo e do corpo. Elas me permitem ser quem sou e quem nunca fui—ou quem talvez ainda venha a ser.

E quando escrevo, não me limito. O verbo se faz ponte entre o real e o imaginário, e eu caminho sobre essa linha tênue, ora equilibrando-me na razão, ora mergulhando de cabeça na loucura. Escrevo sobre a rotina, sobre o extraordinário escondido no ordinário, sobre o cheiro do café que me desperta, o barulho da cidade que nunca dorme, o silêncio ensurdecedor das madrugadas insones. Escrevo sobre o riso fácil, sobre a lágrima contida, sobre o tempo que corre e sobre o instante que insiste em se eternizar.

No papel, as coisas ganham novos significados. A chuva já não é só um fenômeno meteorológico, mas um prenúncio de nostalgia. A calçada esburacada torna-se metáfora da estrada da vida, cheia de armadilhas e tropeços. O reflexo no espelho não é apenas imagem, mas questionamento. E a sombra projetada pelo sol da tarde carrega consigo os fantasmas de tudo que um dia fomos e de tudo que tememos ser.

Escrevo para dar voz ao que cala. Para traduzir o que sinto e, talvez, o que tantos outros sentem, mas não sabem como dizer. Escrevo para contar histórias, para inventar futuros, para resgatar o passado e para registrar o agora. E se por acaso me perguntarem se isso faz sentido, se vale a pena, se muda algo no mundo, direi que não sei. Sei apenas que muda a mim mesmo,e já é o bastante!  E se há algo que aprendi, é que mudar a si mesmo já é um grande começo. Porque no fim, escrever não é só um ato. É um jeito de existir.
#ACDEPAULAPOETA
AC de Paula
Enviado por AC de Paula em 10/02/2025
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